Coluna analisa o peso do apoio da ex-primeira-dama na disputa pelo Senado, a homenagem a Nelson Wilians e as estratégias dos candidatos ao Governo para os debates
RESENHA POLÍTICA
ROBSON OLIVEIRA
CONVOCAÇÃO
A convocação feita por Michelle Bolsonaro para o lançamento da candidatura de Bruno Bolsonaro Scheid ao Senado acrescenta uma variável nova, e nada desprezível, à disputa pelas duas cadeiras de Rondônia. Desta vez, não se trata apenas de uma fotografia protocolar em Brasília, daquelas em que candidato se aproxima, sorri para a câmera e volta para casa carregando a imagem no celular. Michelle foi além: convocou os rondonienses para o evento e apresentou Bruno como “o escolhido de Jair”.
ATIVO
Politicamente, a mensagem é bastante clara. Bruno passa a ostentar, de maneira explícita, aquilo que talvez seja o ativo mais disputado dentro do PL de Rondônia: o selo de candidato identificado diretamente com Bolsonaro e sua família. E aí começa o problema para Fernando Máximo.
BOLHA
O PL rondoniense pode trabalhar mais ostensivamente por Máximo, mobilizar sua estrutura partidária e fazer dele uma prioridade eleitoral. Mas há uma diferença entre o apoio da máquina partidária e o aval afetivo, ideológico e simbólico de Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama tem trânsito próprio no eleitorado conservador e, sobretudo, uma capacidade particular de dialogar com parcelas expressivas do eleitorado evangélico. Seu apoio, portanto, não é apenas uma fotografia bonita para as redes sociais. É uma peça de mobilização da chamada bolha ideológica. Bruno conseguiu essa atenção.
APOIO
E conseguiu de uma maneira que não deixa muita margem para interpretação: Michelle não ficou na moldura da fotografia. Entrou no filme. Convocou o eleitorado, pediu apoio e vinculou publicamente o candidato ao nome de Jair Bolsonaro.
EFEITO
É claro que seria precipitado transformar esse empurrão em percentual de pesquisa. Política eleitoral não funciona como matemática de padaria: Michelle fala hoje, o candidato sobe amanhã e o eleitor deposita o voto depois de amanhã. Entre o aplauso da bolha e a urna existe um continente inteiro chamado realidade eleitoral. Mas seria igualmente ingênuo ignorar o efeito.
CARIMBO
A eleição para o Senado em Rondônia terá uma característica peculiar: dois nomes do PL disputando espaço dentro de um mesmo campo político. E, quando dois candidatos disputam o mesmo eleitorado, qualquer diferencial de identidade pode valer mais do que muitos discursos de convenção. Fernando Máximo pode contar com o trabalho do partido. Bruno, agora, conta também com uma espécie de carimbo familiar. E, em determinadas eleições, carimbo é quase título de propriedade.
TESTE
A questão será saber até onde o “escolhido” consegue transformar a força simbólica do sobrenome Bolsonaro em voto efetivo. Porque uma coisa é ser reconhecido pela bolha como o candidato mais autenticamente bolsonarista; outra, bem diferente, é fazer essa preferência atravessar a bolha e chegar ao eleitor que não passa o dia discutindo política nas redes sociais. Esse será o teste.
MUNIÇÃO
Por enquanto, porém, uma coisa parece evidente: na guerra particular pelo eleitor conservador de Rondônia, Bruno Scheid acaba de ganhar uma munição que Fernando Máximo não recebeu na mesma intensidade. E política, como se sabe, não costuma perdoar quem deixa o adversário ocupar sozinho o território que os dois pretendiam conquistar.
COMENDA
Até hoje não sei, e talvez alguém na Assembleia Legislativa de Rondônia possa explicar, quais foram exatamente os grandes serviços prestados por Nelson Wilians ao Estado que justificaram sua escolha para receber o título de Cidadão Honorário de Rondônia. O Decreto Legislativo nº 2.826, de maio de 2025, concedeu a honraria. Na votação, foram 20 votos favoráveis e nenhum contrário.
LUPA
Na defesa da homenagem, justificou-se que o advogado tinha “muito trabalho prestado” a Rondônia, além de destacar sua trajetória, seu trabalho social e aquilo que chamou de um “legado”. Tudo muito bonito, naturalmente. O problema é que, em matéria de homenagem pública, seria interessante que o cidadão comum também conseguisse enxergar esse legado sem precisar de lupa, binóculo ou contato privilegiado com os arquivos secretos da política.
TAPETE
Rondônia tem gente que passa décadas trabalhando pelo Estado, enfrentando sol, poeira, abandono, falta de estrutura e toda sorte de dificuldades. Há professores, médicos, pesquisadores, empresários, servidores, agricultores, profissionais liberais e anônimos que ajudam a construir este lugar sem jamais receber um tapete vermelho. Nelson Wilians recebeu. Afinal, esta cabeça chata aprendeu uma coisa elementar na política: quando colocam tapete vermelho demais no chão, convém olhar quem está escondendo o buraco embaixo dele.
DEBATES
Os debates entre os candidatos a governador já estão programados e, nos comitês eleitorais, começou a corrida paralela: qual será a melhor estratégia, quem atacar, quem ignorar, como reagir e, principalmente, em que momento apertar o botão do contra-ataque.
ESTRATÉGIA
Municiadas por pesquisas, as assessorias certamente vão tentar desenhar o mapa de batalha. O problema é que debate eleitoral não é uma operação militar com roteiro fechado. Há sempre o imponderável, aquela variável mal-educada que não aparece nas planilhas e costuma aparecer justamente diante das câmeras.
ALVO
As pesquisas podem indicar o alvo preferencial. Podem mostrar quem está na frente, quem ameaça crescer e quem precisa ser contido. Mas não conseguem determinar como o eleitor reagirá a uma frase, a um gesto, a uma ironia ou a um silêncio. E é aí que mora o perigo.
MODORRENTO
Há debates tão amarrados por regras e formatos que o candidato quase precisa pedir autorização para respirar. Pergunta, resposta, réplica, tréplica e acabou. Tudo cronometrado, tudo previsível, tudo tão organizado que, às vezes, parece mais uma reunião de condomínio do que uma disputa pelo governo de um Estado. E é chato assistir ao debate entre candidatos a governador com uma lorota repetitiva sobre a solução das demandas eleitorais.
SERVENTIA
Esses debates mais engessados acabam servindo principalmente às bolhas políticas. Cada grupo recorta o trecho que interessa, fabrica sua narrativa e proclama seu candidato vencedor. O eleitor comum, aquele que não pertence a nenhuma torcida organizada partidária, assiste e provavelmente fica tentando descobrir onde estava o espetáculo anunciado.
CARÁTER
O debate da SIC TV, com regras mais soltas, oferece outra possibilidade. Permite que os candidatos escapem um pouco das fórmulas preparadas pelas assessorias e mostrem algo que não cabe no PowerPoint eleitoral: personalidade. E personalidade, em debate, é uma faca de dois gumes.
COMPORTAMENTO
Falar bem ajuda. Falar demais, nem sempre. Um candidato pode passar cinquenta minutos exibindo segurança, domínio dos assuntos e boa retórica e destruir a impressão construída em trinta segundos. Basta uma frase deslocada, uma resposta arrogante, um ataque mal calculado ou aquele sorriso de superioridade que a câmera transforma imediatamente em arrogância. Debate é tiro no pé quando o candidato confunde agressividade com força e espontaneidade com improviso.
SERENIDADE
Também não basta atacar. É preciso saber onde acertar e, principalmente, saber quando parar. Contra-ataque bom é aquele que parece inevitável, não aquele que foi ensaiado três dias antes diante do espelho.
MOLDURA
O segredo está em dosar. Ataque sem parecer desesperado. Responder sem parecer acuado. Ironizar sem transformar a ironia em grosseria. Defender-se sem fugir. E, sobretudo, não permitir que o adversário escolha sozinho a moldura pela qual o eleitor enxergará sua candidatura.
EXPECTATIVA
Os comitês vão estudar pesquisas, adversários, frases, números e cenários. É legítimo. Faz parte do jogo. Mas nenhum manual de campanha consegue domesticar completamente um debate ao vivo. Por isso se cria tanta expectativa em torno desses encontros. E expectativa, em política, é uma senhora perigosa: promete espetáculo, mas frequentemente entrega apenas propaganda de campanha em alta definição.
EQUILÍBRIO
No fim, nem sempre o candidato que fala melhor faz o melhor debate. Às vezes, vence quem consegue falar o necessário, atacar na medida certa, não cair nas armadilhas e sair do estúdio sem deixar uma frase para o adversário transformar em munição. Porque debate não é concurso de oratória. É uma exposição pública de caráter, preparo, equilíbrio e capacidade de sobreviver ao próprio improviso. E, como a política ensina diariamente, às vezes o maior adversário de um candidato está sentado na cadeira diante do microfone. É ele mesmo. Assessoria ajuda, e muito. O problema é quando o assessor quer ocupar o lugar do assessorado. Que venham os debates, embora nem todos sejam necessários.
PROTOCOLAR
Ainda não encontrei no calendário dos candidatos ao governo de Rondônia o tradicional evento promovido pela OAB que reúne os postulantes para aquela solenidade solene, civilizada e cheia de boas intenções: todos assinam um termo de compromisso pela ética, pela lisura, pelo respeito ao adversário, contra o caixa dois, contra a corrupção e, provavelmente, contra tudo aquilo que a política brasileira costuma fazer quando ninguém está olhando.
ASSINATURAS
A iniciativa não é novidade. A OAB/RO mantém há anos esse tipo de ato. Em eleições anteriores, os candidatos ao governo foram chamados para apresentar propostas, responder perguntas e, ao final, assinar compromissos públicos pela ética e pela transparência. Em 2022, por exemplo, os postulantes assinaram um pacto em defesa da democracia e contra a desinformação.
ROTEIRO
Hoje, convenhamos, o evento já não provoca a mesma curiosidade de antigamente. A liturgia perdeu parte do brilho. O eleitor já viu esse filme algumas vezes e conhece o roteiro: candidatos sorridentes, apertos de mão, fotografias, discursos sobre ética, compromisso com a sociedade e uma assinatura caprichada no documento. Depois começa a campanha de verdade. E é aí que a solenidade começa a envelhecer rapidamente.
PAPEL
O problema não está no compromisso da OAB. A entidade cumpre um papel institucional importante ao colocar os candidatos diante de princípios que deveriam ser óbvios numa disputa eleitoral. O problema está na distância entre a fotografia da assinatura e a realidade da campanha. Porque assinar termo de conduta é fácil. Cumpri-lo é outra história.
TEATRO
Se o documento continuar sendo apenas uma peça protocolar, a solenidade corre o risco de se transformar naquele velho teatro republicano em que todos prometem comportamento exemplar enquanto as assessorias, simultaneamente, preparam ataques, vídeos, memes, dossiês e munição para as redes sociais. É quase uma missa eleitoral: todos entram contritos, fazem profissão de fé na ética e saem absolvidos previamente pela fotografia oficial.
CONSEQUÊNCIA
A OAB poderia, inclusive, dar um passo além da solenidade. Depois de reunir os candidatos e colher suas assinaturas, poderia acompanhar publicamente aquilo que foi pactuado e cobrar explicações quando algum princípio for atropelado durante a campanha. Aí o evento ganharia consequência. Porque compromisso sem fiscalização vira decoração. E ética sem cobrança corre o risco de virar apenas um belo substantivo utilizado em discursos eleitorais.
FOTOGRAFIA
No fundo, o eleitor já está cansado de solenidades em que todo mundo promete exatamente aquilo que sabe que a política, quando fica mais nervosa, costuma esquecer. Mas talvez seja justamente por isso que a OAB ainda deva realizar o encontro. Não para que os candidatos assinem mais um papel. Mas para que, desta vez, alguém se lembre de cobrar a assinatura quando começar a campanha de verdade. Porque fotografia de candidato assinando compromisso pela ética todo mundo gosta. Difícil é encontrar a mesma fotografia quando chega a hora de cumprir o compromisso.

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AUTOR: ROBSON OLIVEIRA





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