Com discos de vinil, CDs, fitas cassete e DVDs, comerciante de 82 anos mantém há décadas um ponto de encontro para colecionadores e admiradores da música
Porto Velho, RO – Um acervo formado por mais de cinco mil itens musicais é mantido em uma banca do Mercado Central de Porto Velho. Discos de vinil, CDs, DVDs e fitas cassete ocupam as prateleiras do espaço administrado por Manuel Miranda de Souza, conhecido pelos frequentadores como Seu Miranda.
Aos 82 anos, o comerciante continua atendendo clientes interessados em títulos da música popular brasileira, do rock, do sertanejo e de outros gêneros. Entre os visitantes estão colecionadores experientes e jovens que passaram a procurar formatos físicos após a retomada do interesse pelos discos de vinil.
Seu Miranda acompanhou diferentes fases do mercado fonográfico. Viu o período de maior popularidade dos LPs, a expansão dos CDs durante a década de 1990, a chegada dos DVDs e, posteriormente, o crescimento das plataformas digitais de música.
A comercialização de materiais usados foi iniciada por ele em 2003. Naquele período, discos, CDs e fitas passaram a ser comprados, organizados e revendidos. A decisão foi recebida com desconfiança por algumas pessoas, que acreditavam que os formatos antigos não teriam mais procura.
Segundo o comerciante, ele preferiu manter os itens por considerar que eles ainda possuíam importância cultural e poderiam voltar a ser valorizados. “Eu sabia que um dia isso ia valer muito e que as pessoas iam sentir falta”, afirmou.
Antes de transformar o hobby em atividade comercial, Seu Miranda trabalhou durante anos com gravadoras. A ligação com a música, no entanto, também se tornou uma fonte de renda importante para a família.
O trabalho realizado no Mercado Central, dividido durante determinado período com uma mercearia, ajudou no sustento da casa. Com a atividade, ele acompanhou a formação das duas filhas, uma graduada em Pedagogia e outra em Direito. Atualmente, também é avô de duas netas.
A relação de Seu Miranda com Porto Velho começou em 1975, quando deixou Manaus e se mudou para a capital de Rondônia. No mesmo ano, passou a trabalhar no Mercado Central. Desde então, acompanhou mudanças na cidade e a demolição do antigo mercado, posteriormente substituído pela estrutura atual.
Mesmo depois das transformações físicas e comerciais ocorridas no local, ele permaneceu no mesmo ponto. A banca tornou-se conhecida entre os frequentadores do mercado e passou a reunir objetos relacionados a diferentes períodos da indústria musical.
Além do acervo, a disposição do comerciante também chama a atenção dos visitantes. Seu Miranda conta, em tom descontraído, que muitas pessoas não acreditam em sua idade. “O pessoal me dá 60 no máximo!”, declarou ao mostrar o documento com o ano de nascimento, 1944.
De acordo com ele, a aparência é atribuída à origem familiar. Seu Miranda relata que a mãe era uma mulher negra brasileira e o pai tinha ascendência portuguesa.
Entre os clientes frequentes está o porto-velhense Marcelo Bispo de Souza. Ele costuma procurar na banca produções dos anos 1990, além de discos de pop rock nacional e internacional.
Para Marcelo, ouvir um CD ou colocar um disco de vinil para tocar durante o domingo representa uma forma de apreciação musical que não é substituída pelos aplicativos. Ele afirma que o formato analógico permite identificar detalhes que podem ser menos perceptíveis nas versões digitais.
“As pessoas dizem que o disco chia, mas quem gosta percebe uma qualidade e uma emoção que o som digital não entrega”, disse.
O cliente também contou ter comparado a mesma música reproduzida em CD e em vinil adquirido na banca. Segundo ele, o disco permitiu perceber o som do contrabaixo e de outros instrumentos com maior destaque. “O digital é limpo, mas no analógico a música tem alma, dá até emoção de ouvir”, afirmou.
A permanência de comerciantes tradicionais no Mercado Central também foi destacada pelo prefeito de Porto Velho. Conforme declarou, histórias como a de Seu Miranda representam a riqueza humana da cidade e reforçam a importância da preservação da memória e da valorização de quem participou da construção da capital.
“Preservar a memória, incentivar nossos comerciantes tradicionais e valorizar quem ajudou a construir Porto Velho é o nosso maior compromisso com o futuro”, declarou.
Além de funcionar como ponto comercial, a banca mantém parte da memória musical de diferentes gerações. O espaço reúne objetos que marcaram mudanças tecnológicas, hábitos de consumo e formas de ouvir música ao longo das últimas décadas.
No Mercado Central, Seu Miranda segue recebendo moradores e visitantes interessados em conhecer o acervo, conversar sobre música ou procurar discos, CDs e outras produções que permanecem fora dos catálogos digitais.
Com informações de: Prefeitura de Porto Velho
COMENTÁRIOS:



