Decisão da Executiva Nacional atingiu Samuel Costa e Neidinha Suruí após aproximação com o PT; ativista acusa partido de violência política de gênero, enquanto grupo destituído contesta a medida e anuncia reação judicial
Porto Velho, RO – A intervenção promovida pela direção nacional do PSB em Rondônia abriu uma disputa política e jurídica sobre as candidaturas que haviam sido aprovadas pela legenda para as eleições de 2026. A medida dissolveu o comando estadual, alterou a estratégia eleitoral do partido e atingiu diretamente Samuel Costa, lançado ao Governo de Rondônia, e a indigenista e ativista Neidinha Suruí, escolhida para concorrer ao Senado.
Segundo a Folha de S.Paulo, a decisão da Executiva Nacional foi tomada em 13 de agosto, após o PSB definir uma aliança com o PT em Rondônia. A medida resultou na dissolução do diretório estadual e na invalidação das decisões da convenção que havia oficializado as candidaturas próprias. Posteriormente, uma nova Comissão Provisória Estadual confirmou a mudança de orientação partidária e a aproximação com a chapa encabeçada por Expedito Netto, do PT.
O episódio ganhou dimensão adicional por causa da situação de Neidinha Suruí. À Folha de S.Paulo, ela afirmou que não foi procurada pelo presidente nacional do PSB, João Campos, antes da decisão e acusou a direção partidária de violência política de gênero. A afirmação é uma acusação da própria candidata e não uma conclusão judicial sobre a conduta dos dirigentes da legenda.
A crise alcança politicamente João Campos porque ele ocupa a presidência nacional do PSB. A decisão formal, entretanto, foi atribuída à Executiva Nacional da legenda, órgão colegiado responsável pela intervenção. Não há, nas informações disponíveis, fundamento para tratar a medida como um ato pessoal de João Campos sem fazer essa distinção.
A direção nacional apresentou uma justificativa diferente para o episódio. Conforme relatado pela Folha, o entendimento do PSB é de que as candidaturas majoritárias em Rondônia deveriam ter sido submetidas à Executiva Nacional em razão das definições partidárias relacionadas à aliança com o PT. Integrantes do diretório estadual destituído contestam essa interpretação e sustentam que as candidaturas haviam sido regularmente escolhidas pela convenção realizada em Rondônia.
A convenção estadual do PSB havia oficializado Samuel Costa para o Governo e Neidinha Suruí para o Senado. A decisão tomada posteriormente pela direção nacional modificou esse desenho eleitoral e levou o partido a abandonar as candidaturas próprias atingidas pela intervenção.
Neidinha tornou pública sua discordância e associou a retirada da candidatura à questão da participação feminina na política. A declaração ampliou o alcance da disputa interna por envolver uma ativista conhecida pela atuação nas áreas ambiental, indígena e de direitos humanos. A caracterização do episódio como violência política de gênero, porém, permanece como posição manifestada por Neidinha Suruí.
Samuel Costa também contestou a intervenção. Ele e integrantes do antigo comando estadual sustentam que uma decisão nacional posterior não deveria eliminar as deliberações tomadas durante a convenção partidária em Rondônia. O grupo anunciou que pretende recorrer às vias jurídicas para questionar os atos da Executiva Nacional.
A divergência já alcançou a Justiça Eleitoral. Em meio às alterações realizadas depois da mudança no comando estadual, a Justiça determinou que o PSB apresentasse as modificações feitas na documentação partidária. A nova composição estadual passou a prever a retirada das candidaturas próprias atingidas pela intervenção.
O conflito envolve, portanto, duas versões claramente distintas. De um lado, a direção nacional sustenta a necessidade de cumprimento das diretrizes partidárias definidas para a composição eleitoral com o PT. De outro, o grupo destituído argumenta que a convenção estadual havia exercido regularmente sua competência ao escolher as candidaturas e questiona a validade da intervenção posterior.
A situação de Neidinha acrescenta outra discussão ao caso. Além da controvérsia sobre autonomia partidária e validade das decisões internas, a ativista sustenta que a maneira como sua candidatura foi retirada configura violência política de gênero. A direção nacional, por sua vez, relaciona a mudança a uma decisão de estratégia eleitoral e às regras internas que, em sua interpretação, subordinavam a composição majoritária à Executiva Nacional.
Com a contestação anunciada pelos integrantes afastados, a controvérsia deixa de se limitar à disputa política dentro do PSB. A validade dos atos partidários, seus efeitos sobre os registros de candidatura e as consequências da substituição do comando estadual poderão ser submetidos às instâncias competentes da Justiça Eleitoral.
Até que existam decisões definitivas sobre esses questionamentos, é necessário separar os fatos já documentados das acusações apresentadas pelas partes. Está confirmado que houve intervenção da direção nacional, dissolução do comando estadual e mudança da estratégia eleitoral do PSB em Rondônia. Também está documentado que Neidinha Suruí acusa o partido de violência política de gênero e que Samuel Costa e seus aliados contestam a medida. A legalidade definitiva dos atos e a procedência das acusações, entretanto, dependem das instâncias responsáveis pela análise do conflito.
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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