Lula afirma que decisão sobre apostas eletrônicas pode ser tomada ainda nesta semana; reunião no Planalto reuniu representantes de diferentes setores e debateu impactos sociais, econômicos e na saúde
Porto Velho, RO – O crescimento da procura por atendimento relacionado à dependência em apostas e as perdas financeiras acumuladas pelas famílias brasileiras passaram a integrar o debate do governo federal sobre o futuro das casas de apostas eletrônicas no país. Diante dos impactos relatados na saúde, na economia e no orçamento familiar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou que uma decisão sobre as bets poderá ser adotada em breve.
Dados apresentados pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, mostram uma expansão significativa da demanda por cuidados no Sistema Único de Saúde (SUS). A estrutura disponibilizada inicialmente previa 600 atendimentos por mês, mas o número mensal já chegou a 100 mil. Entre as pessoas que procuram assistência, 55% são mulheres, apesar de os homens representarem a maior parcela dos envolvidos com apostas.
O atendimento também pode ser iniciado pela plataforma online SUS Digital, segundo Padilha. Por meio do serviço, pessoas com dependência em apostas podem solicitar assistência e começar um plano terapêutico.
O ministro informou ainda que uma proposta de resolução relacionada ao problema está sendo discutida na Organização Mundial da Saúde (OMS). Brasil, Espanha e Canadá estão entre os países que lideram a iniciativa.
Outro dado levado em consideração no debate envolve o impacto financeiro das apostas. As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets no ano passado. O cálculo considera o valor líquido, obtido pela diferença entre o total apostado e o montante devolvido aos jogadores em prêmios.
Considerando o período entre outubro de 2024 e março de 2026, a média das perdas chegou a R$ 4,7 bilhões por mês. O montante equivale a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. No mesmo intervalo, as casas de apostas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.
As consequências sociais e econômicas das apostas também foram relatadas durante uma reunião realizada nesta terça-feira (1º), no Palácio do Planalto, em Brasília. Representantes da sociedade civil foram recebidos pelo presidente para apresentar avaliações sobre o funcionamento do setor e seus efeitos sobre a população.
Durante o encontro, foram defendidas medidas que chegaram à possibilidade de proibição das bets no Brasil. Integrantes da reunião relataram situações envolvendo endividamento, problemas de saúde e comprometimento da renda das famílias.
Um dos casos apresentados foi o de um pai preocupado com a filha, que teria contraído dívida com um agiota depois de perder dinheiro em apostas eletrônicas. Também foram apontados reflexos da atividade sobre a inadimplência, com recursos que anteriormente seriam destinados ao consumo sendo direcionados às apostas, afetando o comércio.
Entre as propostas apresentadas ao presidente esteve ainda a criação de uma secretaria extraordinária destinada ao enfrentamento das plataformas de apostas ilegais.
A reunião foi conduzida pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior. Também participaram Alexandre Padilha, da Saúde; Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência da República; Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública; Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social; e Paulo Henrique Cordeiro, do Esporte.
Entidades ligadas à proteção de crianças, estudos em saúde e representantes dos setores comercial, econômico e artístico também estiveram presentes.
Lula explicou que a consulta à sociedade civil foi incluída no processo antes de uma definição do governo. Segundo o presidente, as discussões sobre como enfrentar os problemas relacionados às bets já estavam em andamento, mas ele considerou necessário conhecer diferentes avaliações antes da adoção de uma solução definitiva.
Após o encontro, Lula afirmou que poderá convocar ainda nesta semana uma nova reunião destinada à tomada de decisão.
O presidente já classificou as apostas eletrônicas como “um mal pra sociedade” e declarou ser favorável ao fim desse tipo de atividade. Ao mesmo tempo, ressaltou que, na condição de chefe do Executivo, precisa avaliar os possíveis efeitos políticos, sociais e econômicos de qualquer medida adotada.
Ao abordar as dificuldades enfrentadas pelo poder público, Lula citou a existência de milhares de plataformas clandestinas e a participação de personalidades conhecidas em campanhas publicitárias de apostas. Segundo ele, as tentativas de regulamentação e combate às operações ilegais encontram obstáculos diante da dimensão desse mercado.
“Acho que temos que tomar a decisão mais drástica”, afirmou.
Lula também mencionou que combater cerca de 60 mil bets clandestinas não é uma tarefa simples e criticou a intensa exposição das apostas em ações publicitárias, inclusive durante transmissões esportivas.
A expectativa agora é de que as informações apresentadas pelos representantes da sociedade civil sejam consideradas nas próximas discussões do governo sobre quais medidas deverão ser adotadas para enfrentar os impactos provocados pelas apostas eletrônicas no Brasil.
Com informações de: Agência Brasil
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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