Memórias dos anos 1980 mostram como colonização, garimpos e fragilidade sanitária transformaram Jaru e outras áreas de Rondônia em focos da doença, mobilizando Sucam, governo e até o Banco Mundial
Sempre me lembro do trabalho de fôlego do médico Olivar Emmanoel Coutinho da Fonseca à frente da Unidade Mista de Saúde de Jaru, nos anos 1980.
Já relatei esse fato, tempos atrás, mas novamente o trago ao debate quando notamos a luta dos cientistas da Fiocruz-RO na incessante busca pelo controle da malária, pelo avanço nas pesquisas e para que, um dia, o Brasil disponha de vacina contra a doença.
Quando Olivar Emmanoel se dedicou ao combate da malária nesse município da BR-364, as estatísticas apontavam: de cada quinhentos internamentos na Unidade Mista de Jaru, pelo menos trezentos eram motivados pela doença “campeã” das endemias no mundo.

Certa vez, o médico fez parceria com a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), designando 15 agentes para conscientizar a população rural sobre os efeitos das drogas à base de quinino e as maneiras de evitar a malária.
Enquanto colonos atacados por essa doença morriam sem resistência, abandonados no interior da floresta, as famílias carregavam seus corpos em redes até as covas abertas lá mesmo.
O Projeto Padre Adolfo Rohl não levava a culpa sozinho, pois 15% dos casos ocorridos em Jaru haviam sido detectados na zona urbana, principalmente entre homens.
A situação piorava com a chegada de garimpeiros à Serra Sem Calças, constatava o então secretário estadual de Saúde José Adelino da Silva.

A angústia dos colonos crescia, na medida em que visitavam a cidade, onde já preocupava a ocorrência de hanseníase, leishmaniose e tifo.
A 30 quilômetros dali, a malária matava quatro pessoas em Ouro Preto do Oeste. Atacados pelo mosquito anofelino, transmissor da doença, no Distrito de Abunã, um geólogo, um administrador, um motorista e 20 trabalhadores braçais tiveram de paralisar a pesquisa de ouro e cassiterita. Os maiores focos alastravam-se pelos garimpos de Mutum Paraná e Paredão.
A partir de Jaru, a malária era reconhecida não apenas nos relatórios da Saúde Pública, mas despertava o Banco Mundial. Oscar Echeverria, economista da instituição, prometia apoiar o combate aos focos, aumentando para 55% a parcela de recursos à saúde em Rondônia.
O Banco era o financiador do Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil (Poloroeste), criado pelo engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa William Curi, para o custeio da colonização. Somente em 1984, o Banco investia 80 bilhões de cruzeiros no mais novo estado brasileiro.
Em outro momento volto a comentar outras situações causadas pela malária em Rondônia.

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AUTOR: MONTEZUMA CRUZ





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