Relato relembra a criação de queixadas e catetos em propriedade rural de Mandaguaçu, no Paraná, e aborda características, comportamento, reprodução e desafios da convivência entre esses animais silvestres e a atividade humana.
Montezuma Cruz
Em minhas novas andanças Paraná adentro, entre 2006 e 2007, enveredei-me na área ambiental. Lá, onde não mais existem matas abundantes, o bicho vira notícia. Foi assim que, no meio de uma tarde calorenta, deparei-me com arbustos jogados sobre o alambrado de um sítio, atraindo a manada de 50 cabeças de queixadas (Tayassu pecari) e catetos (catititu, Tayassutajacu) soltas num extenso terreno arenoso próximo à faixa de mata nativa da Granja Suim, em Mandaguaçu.
Esse município é vizinho a Maringá], na região noroeste do Estado do Paraná, sede de uma das maiores cooperativas do País, a Cocamar.
Constatava que machos, fêmeas e filhotes só reagem ao sentir ameaça de invasão do território. São simpáticos, mas afugentam caçadores. Batem os dentes mandibulares contra os maxilares, atemorizando onças e cães caçadores. O barulho é ouvido longe.
Comem sementes, brotos, raízes e frutas. São canibais: confinados, queixadas se agridem, e os mais fortes devoram os fracos. Enquanto a porca dá cria de 26 filhotes por ano, a queixada gera apenas dois.
Eu contava em reportagem de página n’O Diário do Norte do Paraná (22/10/2006), o drama do comerciante e sitiante Antonio Roberto Populim, que recebera as primeiras cabeças de presente de um amigo fiscal do Ibama, em Foz do Iguaçu. Até aí, ele estava sossegado, vendendo produtos veterinários na loja da Avenida Brasil, em Maringá, e cuidando da granja de suínos em Mandaguaçu.
Os bichos adquirem pelagem até os 75 dias de vida, acompanham a mãe no mesmo dia do nascimento, e se multiplicam rapidamente. Sem ordens para doar, comercializar ou abatê-los, Populim sentiu o “presente de grego”.
Queixadas e catetos faziam parte da fauna regional entre os municípios de Cianorte e Jussara. Sobreviviam até em áreas devastadas, o que reforçava sua rusticidade. No Paraná, já estavam ameaçados pela perda do ambiente natural para a ocupação humana e a pressão exercida pela caça em algumas regiões, a exemplo das cercanias do Parque Nacional do Iguaçu.
Na reserva florestal da Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná, em Jussara, eles devoravam lavouras de milho e de soja. “Tem agricultor que já desistiu de plantar, outros caçam o bicho que come as folhas da soja quando a planta se desenvolve, e em seguida devora as sementes; são numerosos”, contava-me Acrécio Moroti, funcionário da companhia.
E a carne do bicho? – o leitor pergunta.
Mário Roberto Andriheti, naquela ocasião presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes de Maringá, garantia-me que a aceitação da carne de queixada e cateto só ocorreria em médio prazo. “Aqui, o povo ainda prefere carneiro e o avestruz ainda vai marcar posição, e tudo depende da licença ambiental”.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
O pesquisador da Embrapa Suínos e Aves Cláudio Bellaves diferenciava a carne iguaria e a carne alimento: “A iguaria – carne de avestruz, cateto, faisão, queixada e outros – é cara e de paladar sofisticado. Certamente, é diferente da carne alimento, da qual a população, de maneira geral, precisa para seu desenvolvimento sadio”.
O ser humano tem preferências para tudo, basta instigá-lo.
FICHA DO BICHO

Cateto
⩥ Nome popular: Cateto, caititu. Nome científico: Tayassu tajacu
Vive em florestas e cerrados, até 25 anos. Pesa 30 quilos. Come folhas, tubérculos, raízes e outros alimentos suplementados com milho e sal mineral.
Um a quatro filhotes, em 150 dias de gestação. Demarca o território com uma glândula que tem nas costas: Dali sai uma gordura com cheiro forte que ele esfrega nas árvores, deixando esse sinal de cheiro, para que ninguém invada seu território.

Queixada
⩥ Nome científico: Tayassu pecari.
Habitat: florestas.
Quando criado em cativeiro come frutas, sementes, brotos, raízes, mandioca, abóbora, milho, sal mineral, folhas verdes e outros disponíveis no ambiente.
Dois filhotes, em 156 dias de gestação. Adulto, mede 76,5 a 105 centímetros de comprimento. Andam em bandos de 50 a 300 indivíduos. Os machos velhos normalmente ponteiam as varas. Possui na base da cauda uma glândula que produz cheiro forte, característico, quando está alarmado.

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