Debate na Madeira-Mamoré expõe estratégias e embates entre candidatos, enquanto a coluna questiona a disparidade das pesquisas e antecipa novo confronto na SIC TV
DEBATE
O debate promovido ontem pelo site Rondônia ao Vivo, do jornalista Paulo Andreoli, merece registro positivo. Apesar dos tropeços técnicos no início, comuns em transmissões pela internet, o evento encontrou o rumo. E, quando encontrou, entregou ao público aquilo que se espera de um debate eleitoral: confronto de ideias. As regras mais soltas ajudaram. Sem tantas amarras, os candidatos puderam perguntar, responder, provocar e, sobretudo, explicar. É justamente aí que muitos debates televisivos pecam: engessam tanto o candidato que até o pensamento parece precisar de autorização.
FUGIU
A ausência de Hildon Chaves, candidato do União Brasil, já havia sido anunciada. Mas não deixa de produzir questionamentos políticos sobre sua disposição para enfrentar os adversários. Hildon tem encontrado dificuldades nos debates recentes, aparecendo disperso e com problemas para concluir raciocínios. É uma situação curiosa para quem conheceu o Hildon de 2018. Naquela eleição, ele era rápido nas respostas, firme nas tiradas e dono de frases que ajudaram a transformar uma candidatura considerada improvável em vitória. Era um candidato que parecia jogar alguns segundos à frente dos adversários.
SAÚDE
A coluna também registra as especulações que circulam sobre a saúde de Hildon e contrapõe essas versões à entrevista recente feita pelo próprio autor, na qual a conversa transcorreu normalmente. Sem diagnóstico, o texto observa que o desempenho do candidato sob a pressão direta de debates tem sido diferente. Seja qual for a explicação, Hildon terá de enfrentar os debates de televisão. E televisão não costuma conceder intervalo para quem perde o fio do raciocínio.
VALE TUDO
Entre os presentes, Adailton Fúria, Marcos Rogério, Pedro Abib, Expedito Netto e Samuel Costa tiveram atuações firmes. Foram objetivos, apresentaram suas visões e conseguiram confrontar propostas sem transformar o encontro em ringue de vale-tudo. Fúria não fugiu do confronto com Marcos Rogério. Sempre que o sorteio lhe permitiu, escolheu o candidato do PL para perguntar.
INVERTIDAS
Os dois protagonizaram o embate mais evidente da noite, mas sem ultrapassar a civilidade. Marcos tentou devolver a Fúria o episódio envolvendo a prisão do ex-prefeito de Ji-Paraná, Isaú Fonseca. Recebeu de volta a lembrança da operação policial que atingiu esta semana o prefeito de Nova Mamoré, envolvendo investigação sobre supostos ilícitos relacionados ao fundo eleitoral do PL na eleição passada. O prefeito investigado é apontado como um dos coordenadores da campanha de Marcos Rogério.
DESEMPENHO
Fora esse momento de maior tensão, prevaleceu o respeito. E isso precisa ser registrado. Samuel Costa manteve sua conhecida disposição para a provocação, mas reduziu a temperatura. Expedito Netto e Pedro Abib também tiveram participações consistentes, contribuindo para ampliar o leque de propostas apresentadas ao eleitor.
SIMBOLISMO
No fim, o debate cumpriu uma função que parece cada vez mais rara na política: permitiu ouvir candidatos falando de administração pública. Saúde, infraestrutura, segurança, economia e os problemas estruturais de Rondônia apareceram sob diferentes perspectivas. Outro acerto foi o cenário. Escolher a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foi mais do que uma decisão estética. Foi uma escolha simbólica.
APOSTAS
O complexo, depois da reinauguração, está novamente imponente. Este jornalista ainda não havia retornado ao local e confesso que a recuperação impressiona. A arquitetura, a história e a memória daquele espaço deram ao debate uma moldura que nenhum estúdio conseguiria reproduzir. Paulo Andreoli e sua equipe acertaram na escolha. Acertaram também ao apostar num formato menos engessado.
SUCESSO
Os problemas técnicos iniciais foram sendo corrigidos ao longo da transmissão e não comprometeram o resultado final. Ao contrário: o improviso acabou sendo superado pelo conteúdo. A principal lição da noite foi simples. É possível discordar sem transformar adversário em inimigo. É possível confrontar projetos sem transformar política em briga de torcida. E é possível fazer debate eleitoral com inteligência, civilidade e algum espaço para a espontaneidade. Rondônia precisa disso. Os candidatos fizeram sua parte. Os organizadores também.
CACETE
No final, o que se viu na Madeira-Mamoré foi mais do que um debate entre candidatos. Foi uma demonstração de que a democracia ainda funciona melhor quando os políticos são deixados para falar, perguntar e responder. Sem mordaças regimentais, sem teatro excessivo e sem a necessidade de transformar cada pergunta em sentença de morte. Um bom debate não escolhe o governador. Mas ajuda o eleitor a escolher com mais informação. E, nesta noite, Rondônia saiu ganhando. O próximo encontro está marcado para esta segunda-feira, na SIC TV (Record), considerado um dos mais aguardados e concorridos. Neste, tradicionalmente, o pau tem cantado. A ver.
PESQUISA
Pesquisa eleitoral virou, em alguns casos, uma espécie de horóscopo com metodologia: cada instituto entrega ao freguês o número que melhor lhe convém e depois todos fingem que aquilo é ciência exata. A disparidade cada vez maior entre pesquisas que colocam candidaturas em patamares que simplesmente não se configuram nas ruas, somada a problemas de amostragem, tem contribuído para desmoralizar o próprio instituto de pesquisa.
RIVOTRIL
Há quem use o expediente para atender interesses eventuais de candidaturas e tentar influenciar a decisão do eleitor. Perde tempo. Esse tipo de pesquisa serve, no máximo, para animar as bolhas de candidatos ávidos por qualquer manchete que cheire a vitória. É uma espécie de Rivotril eleitoral: acalma a militância, mas não altera a realidade. O eleitor médio, que não se deixa levar pela boataria digital, começa a desconfiar de todas elas.
LOROTA
E não deveria ser assim, porque há institutos sérios, com metodologia consistente e capacidade de produzir bons retratos do momento. O problema é que fotografia ruim também envelhece rápido: publicada hoje, amanhã já pode estar desatualizada. Vai chegar a hora quando alguém encomendar pesquisa para perguntar ao eleitor se ele confia em pesquisa. Aí já entramos no território kafkiano: o pesquisador pesquisa a credibilidade da própria pesquisa.
No fim, tanta pirotecnia numérica pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado: em vez de influenciar o eleitor, ensina-o a desconfiar do fotógrafo. Se dependesse de um instituto e de alguns cabeças de bagre, a eleição estaria encerrada no primeiro turno com uma decisão que o eleitor sequer foi às urnas. A mesma lorota que espalhavam nas eleições municipais da capital. Deu no que deu. Não aprendem…

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AUTOR: ROBSON OLIVEIRA





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