Debate na SIC TV expõe choque entre Netto e Samuel, estratégias de Rogério e Fúria, desempenho dos demais candidatos e reconhecimento ao início do Hospital Universitário
PORRADA
O debate da SIC TV, realizado na noite de segunda-feira (21), era tratado como um dos principais confrontos desta reta final da eleição. Reuniu os seis candidatos e colocou na mesa temas como saúde, Energisa, pedágios, infraestrutura, educação e finanças estaduais. Mas, no fim, parte considerável da memória do eleitor pode ficar menos com as propostas e mais com a pancadaria verbal.
VALE TUDO
O debate da SIC TV tinha tudo para ser o melhor da temporada. E, em boa medida, foi. Até que Expedito Netto e Samuel Costa resolveram transformar o confronto eleitoral numa espécie de campeonato de vale-tudo verbal. A política, que já não anda exatamente em boa forma, ganhou ontem mais duas cicatrizes. Há uma velha máxima sobre a esquerda: esquerdista não se une nem na prisão. Ontem, pelo menos no palco da televisão, ela ganhou uma demonstração prática. Expedito, do PT, e Samuel, do PSB, protagonizaram uma autofagia em escala industrial. Um atacava, o outro devolvia; um subia o tom, o outro cavava mais fundo.
ACUSAÇÕES
E aqui está o problema: acusações de assédio sexual e insinuações relacionadas a exame toxicológico não são matéria para duelo de frases de efeito. São acusações graves, que exigem fatos, documentos, investigação e esclarecimentos. Transformá-las em munição instantânea de debate empobrece o debate e, principalmente, o eleitor.
RINHA
O eleitor não liga a televisão para assistir a dois candidatos tentando descobrir quem consegue produzir o insulto mais devastador. Quer saber quem vai administrar o Estado, como pretende financiar suas promessas, o que fará com a saúde, a educação, a infraestrutura, a segurança e as contas públicas. Quando a proposta desaparece atrás do insulto, a democracia perde alguns minutos de televisão e ganha uma dose extra de cansaço. Expedito e Samuel conseguiram, portanto, um feito curioso: sobressaíram no debate da maneira menos recomendável. Os dois conseguiram sequestrar a narrativa. Enquanto os outros discutiam governo, eles protagonizavam uma rinha.
FANTASMA
Hildon, o fantasma do debatedor que já foi. Para este cabeça-chata, o caso mais preocupante, entretanto, foi Hildon Chaves. Outrora um demolidor de adversários em debates, Hildon apareceu ontem como uma sombra daquele candidato que sabia construir uma frase, encontrar a veia do adversário e apertá-la até sangrar politicamente. Na avaliação do colunista, desta vez o candidato não repetiu o desempenho que marcou participações anteriores.
ÓBITO
Quando teve diante de si Adailton Fúria, justamente um dos adversários que precisa enfrentar se pretende permanecer competitivo na disputa, Hildon não conseguiu construir um ataque consistente. Levou para o confronto um inquérito que, segundo ele próprio, já estaria arquivado por quatro vezes. É uma dessas situações em que o atacante entra em campo carregando a própria certidão de óbito da acusação.
FRUSTRAÇÃO
Fúria percebeu a oportunidade e devolveu no terreno da Energisa, assunto que tem apelo particularmente forte em Porto Velho. Hildon, que deveria conduzir o debate para sua experiência administrativa na Capital, terminou divagando. Para o autor, houve uma quebra de expectativa. Havia uma expectativa razoável de que Hildon utilizasse sua experiência de prefeito para ocupar o debate com aquilo que deveria ser seu patrimônio eleitoral: a administração da Capital.
AUSENTE
Não defendeu com vigor o próprio legado, não estabeleceu uma narrativa clara e tampouco produziu a velha frase de efeito que costumava transformar adversários em personagens secundários. Na leitura da coluna, o desempenho ficou abaixo daquele associado a participações anteriores do candidato em debates.
CONFUSO
Pedro Abib teve momentos melhores. Manteve o estilo professoral, articulado e rápido, o que, num debate transformado em ringue por alguns minutos, já seria quase uma virtude revolucionária. Mas há uma diferença entre ser bom orador e ser candidato eleitoralmente competitivo. Abib fala bem. Muito bem. Constrói raciocínios, articula conceitos e apresenta-se como alguém preparado. O problema é que, algumas vezes, termina a frase e o eleitor continua procurando a resposta.
NADA DE NOVO
A política exige mais que discurso. Exige empatia, identificação, experiência de campo e capacidade de transformar ideias em mensagem eleitoral. Abib ainda parece acreditar que basta demonstrar que a política envelheceu para convencer o eleitor de que ele representa o novo. Não é tão simples. Não foi mal. Também não foi, porém, aquele debatedor que sai da televisão com o eleitor perguntando: “Quem é esse homem e onde estava escondido?”
REVELAÇÃO
Marcos Rogério e Adailton Fúria fizeram o que se espera de dois candidatos que ocupam espaço relevante na disputa: confrontaram diferenças. A saúde foi um dos terrenos principais. Marcos, sempre eloquente e estruturado na exposição, defendeu suas posições. Fúria, mais leve e com uma comunicação menos solene, procurou colocar a experiência administrativa no centro da conversa. Não houve propriamente uma revelação extraordinária. Mas houve disputa. E isso já foi importante.
TÁTICA
No primeiro bloco, ficou evidente uma espécie de estratégia coletiva para não dar palco demais a Fúria. Só que a estratégia começou a fazer água nos blocos seguintes. Fúria, toda vez que teve oportunidade, chamou Marcos Rogério para o duelo. Marcos, por sua vez, evitou o confronto direto tanto quanto pôde. Há uma razão política nisso: quando alguém está sendo desafiado, aceitar o duelo também significa reconhecer o desafiante.
RETRATO
Fúria saiu para buscar o confronto entre as propostas. Marcos preferiu administrar a exposição. Foi uma diferença de comportamento que o eleitor certamente pôde perceber. A coluna também registra a expectativa de um segundo turno entre os dois, embora a campanha de Marcos Rogério fale em vitória antecipada no primeiro turno, cenário que o próprio texto trata com cautela diante do histórico eleitoral de Rondônia.
CURIOSIDADE
E a cola de Camargo? Antes de começar o debate, outra cena chamou atenção: o delegado Camargo, vice de Marcos Rogério, aparentemente auxiliando Samuel Costa com uma cola. A imagem, por si só, foi curiosa. Camargo é um dos aliados mais identificados com o discurso de oposição às teses defendidas por Samuel. De repente, os dois apareciam numa cena quase de camaradagem acadêmica, como se um estivesse emprestando ao outro o resumo da prova. Na política, entretanto, até a cola pode ter estratégia. O curioso é que a cena parecia produzir uma contradição visual: de um lado, o discurso político de combate à esquerda; de outro, uma ajuda prática ao candidato identificado com esse campo.
BANALIDADE
Pode ter sido apenas gentileza. Pode ter sido uma circunstância banal. Mas televisão é cruel: registra tudo, inclusive aquilo que ninguém pretendia transformar em mensagem. O que ficou.
MARCOS ROGÉRIO
No conjunto, o debate mostrou seis candidatos bastante diferentes e uma eleição ainda sem narrativa única. Marcos Rogério mostrou segurança e capacidade de argumentação.
ADAILTON FÚRIA
Fúria demonstrou disposição para enfrentar os adversários e, sobretudo, não fugir do confronto e aproveitou para enumerar seus feitos na Prefeitura de Cacoal.
PEDRO ABIB
Pedro Abib confirmou a capacidade oratória, mas ainda procura transformar discurso em conexão eleitoral. Hildon Chaves teve uma noite muito abaixo do que sua trajetória em debates fazia esperar, segundo a avaliação do colunista.
NETTO E SAMUEL
E Expedito Netto e Samuel Costa, por excesso de agressividade, terminaram transformando uma disputa de propostas numa rinha particular. O mais irônico é que o melhor debate de Rondônia quase foi engolido justamente pelo pior hábito da política: quando faltam argumentos, sobram acusações.
CONTAMINOU
Debate não é confessionário, ringue nem delegacia. É o lugar onde o candidato deveria explicar por que merece governar. Ontem, em alguns momentos, parecia apenas que seis homens haviam recebido duas horas de televisão e dois deles resolveram gastar boa parte delas tentando provar quem conseguia desqualificar melhor o outro.
PERGUNTA
O eleitor, esse sujeito cada vez mais desconfiado, provavelmente assistiu a tudo com a velha pergunta na cabeça: “E o meu problema, quem vai resolver?” Essa resposta, ontem, ficou escondida em algum lugar entre uma acusação, uma réplica e outra provocação.
RECONHECIMENTO
Em pouco mais de um ano de administração, Léo Moraes conseguiu colocar para funcionar uma unidade que, para Porto Velho, representa muito mais do que uma obra inaugurada com pompa e discurso: o Hospital Universitário, resultado de uma parceria entre a Prefeitura, o Governo Federal e a Universidade Federal de Rondônia (Unir). Em uma capital onde a população há anos convive com um sistema estadual de saúde estrangulado, a entrada de uma nova estrutura hospitalar no atendimento público merece registro e, sobretudo, reconhecimento.
FEITO
Não se trata apenas de abrir as portas de um prédio. Léo também conseguiu estruturar a contratação dos profissionais de saúde por meio de uma fundação, criando as condições para que a unidade tenha funcionamento efetivo e não se transforme em mais um monumento público à burocracia. Porto Velho conhece bem esse filme: inaugura-se a obra, descerram-se placas, fazem-se discursos e depois começa a peregrinação para descobrir quem vai trabalhar lá.
Desta vez, pelo menos até aqui, a história é diferente. A administração municipal encontrou parceiros, colocou a estrutura para funcionar e ampliou a capacidade de atendimento da capital. Em tempos de promessas que frequentemente ficam no caminho entre o palanque e a realidade, fazer um hospital funcionar é um feito que merece ser destacado. Léo já entrou para nossa história como um prefeito operoso. Precisa fazer muito mais, mas pela saúde fez muito mais que todos os antecessores juntos.

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AUTOR: ROBSON OLIVEIRA





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