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ENTREVISTA

Fátima Cleide acusa má-fé em polêmica com a PM, vê misoginia em críticas e fala em “atraso civilizatório” no agronegócio

A deputada estadual eleita Fátima Cleide durante entrevista ao podcast Resenha Política
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Deputada estadual eleita pelo PT nega ter atacado a Polícia Militar de Rondônia, chama questionamento sobre sua residência de “sacanagem”, critica relações trabalhistas no setor rural e admite que conflitos internos enfraqueceram o próprio partido

Por Yan Simon - terça-feira, 27/10/2026 - 11h30

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Porto Velho, RO – A deputada estadual eleita Fátima Cleide (PT) acusou de má-fé a condução de uma entrevista anterior que gerou controvérsia sobre suas declarações a respeito da Polícia Militar, classificou como violência política e misoginia os questionamentos sobre sua permanência em Brasília e criticou setores do agronegócio quanto ao cumprimento de direitos trabalhistas e aos impactos ambientais da produção rural. As declarações foram dadas ao jornalista Robson Oliveira no podcast Resenha Política, apresentado em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica. Em cerca de 40 minutos, a ex-senadora também tratou das dificuldades eleitorais do PT em Rondônia e admitiu que conflitos internos enfraqueceram o próprio partido.

A controvérsia com a Polícia Militar

Robson Oliveira retomou a repercussão de uma entrevista anterior e perguntou diretamente se Fátima Cleide havia sido mal interpretada ou se realmente afirmara que a Polícia Militar de Rondônia “não vale nada”. A parlamentar rejeitou a interpretação e responsabilizou a forma como suas declarações foram apresentadas ao público. Segundo ela, ficaram de fora propostas que havia defendido em favor dos próprios policiais militares: concursos públicos, recomposição do efetivo e melhoria das condições salariais.

A entrevistada afirmou que suas considerações sobre letalidade policial tratavam de um problema nacional, com base no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e negou ter classificado a corporação rondoniense como uma das mais letais do país.

Fátima também criticou a política de valorização profissional adotada no governo estadual. Em sua avaliação, os coronéis teriam sido os principais beneficiados por ascensões funcionais e melhorias salariais, enquanto outras patentes continuariam enfrentando dificuldades. Defendeu novos concursos e disse que a demora na formação de agentes agrava a necessidade de recompor os efetivos.

Para contestar a leitura de que teria posição contrária à corporação, a ex-senadora recuperou episódios de sua trajetória. Relatou que, durante o governo de Ivo Cassol, participou de mobilizações organizadas por familiares de policiais militares e afirmou ter estado em batalhões ao lado do então deputado Eduardo Valverde. Defendeu uma segurança pública que combine aumento do efetivo, remuneração adequada, jornadas compatíveis com as atribuições e mudanças na formação policial, com ênfase na cidadania e na redução do recurso à violência. Citou Pimenta Bueno e outros municípios do interior onde, segundo relatou, a presença policial seria insuficiente.

“Sacanagem”: a reação ao questionamento sobre residência

Nos momentos finais do programa, ao comentar a atuação da petista em Brasília, Robson Oliveira afirmou que ela teria sido a única deputada estadual eleita sem residir em Rondônia. A observação provocou reação imediata: a entrevistada considerou a abordagem injusta e a relacionou a preconceitos dirigidos contra mulheres na política.

Questionada pelo apresentador se realmente considerava a observação preconceituosa, reafirmou o entendimento e argumentou que exercer funções profissionais em Brasília não pode ser tratado automaticamente como afastamento dos interesses de Rondônia.

Para fundamentar a resposta, explicou ser servidora pública federal há aproximadamente 45 anos, com vínculo anterior aos processos de transposição de servidores. Contou que se transferiu para Brasília em novembro de 2022, ao integrar a equipe de transição do governo federal na área da educação; depois trabalhou na Secretaria-Geral da Presidência da República e assumiu uma secretaria nacional no Ministério das Mulheres. Afirmou ter mantido interlocução com o Instituto Federal de Rondônia e a Universidade Federal de Rondônia, cujos representantes, segundo ela, encontravam apoio em seus contatos no governo federal.

O embate sobre o agronegócio

Perguntada se existiria incompatibilidade entre a esquerda e o agronegócio, Fátima respondeu que não, mas separou duas coisas: os investimentos públicos destinados ao setor e as relações de trabalho existentes em parte das atividades rurais. Segundo ela, governos liderados pelo PT mantiveram políticas de incentivo à agricultura empresarial, com recursos que superariam amplamente os destinados à agricultura familiar. Chegou a mencionar uma diferença de dez vezes entre os investimentos, embora tenha reconhecido dificuldade para recordar os valores.

Para a petista, o conflito principal não estaria no financiamento da produção, e sim na intensidade da fiscalização e na garantia dos direitos dos trabalhadores. Usou a expressão “atraso civilizatório” para caracterizar aspectos do setor que, em sua avaliação, resistiriam ao reconhecimento de direitos ou deixariam de considerar adequadamente os impactos sociais e ambientais da atividade. Em seguida, ressalvou que a crítica não alcança todos os produtores rurais e reconheceu a existência de empresários que respeitam direitos trabalhistas e participam de missões comerciais ao lado do presidente Lula.

Na mesma discussão, fez uma acusação dirigida ao poder público estadual: afirmou que Rondônia estaria incluída em uma lista associada a trabalho análogo à escravidão, em razão de contratações de empresas terceirizadas que utilizariam trabalhadores nessas condições. Empregou o episódio como exemplo da necessidade de fiscalização trabalhista.

O entrevistador apresentou uma leitura diferente, que disse ter ouvido de um representante do agronegócio rondoniense: a de que a agricultura de grande escala utiliza tecnologias capazes de reduzir a necessidade de trabalhadores e que as divergências com o PT estariam mais relacionadas à concepção de governo, à política externa e a questões tributárias do que ao descumprimento de direitos. Fátima respondeu recorrendo à política comercial brasileira, afirmando que as viagens de Lula à Rússia, à China e a países africanos ampliam oportunidades de negócio para empresários brasileiros, inclusive do setor agropecuário. Insistiu que o conflito é sobretudo político, e não econômico.

A parlamentar ampliou a discussão ao relacionar práticas e concepções presentes no setor rural à herança histórica da escravidão brasileira. Mencionou a criação de políticas públicas voltadas à população negra e afirmou que a ampliação do acesso de profissionais negros a carreiras como medicina, engenharia e segurança pública resulta de processos históricos de reivindicação.

Agrotóxicos, saúde e a disputa cultural

A deputada eleita disse estar preocupada com os efeitos dos agrotóxicos sobre a água, o solo, o ar e a saúde da população, e afirmou que a discussão alcança tanto grandes propriedades quanto pequenos produtores que utilizam defensivos sem os cuidados adequados. Citou o descarte de embalagens em rios e a pulverização por aeronaves e drones. Relatou visita ao Ibama em agosto de 2026, quando teria tido acesso a informações sobre o uso de agrotóxicos no estado, e mencionou um indicador de 18 quilos por rondoniense. A parlamentar também questionou a existência de estudos sobre as possíveis consequências sanitárias da exposição a essas substâncias e mencionou o atendimento hospitalar a pacientes com câncer.

A entrevistada associou ainda a influência cultural do setor à disputa política. Afirmou que o agronegócio passou a ocupar espaço na publicidade, na televisão, nas novelas e na produção musical, o que ajudaria a consolidar uma imagem favorável, enquanto manifestações culturais regionais e outros segmentos da música brasileira teriam menos oportunidade de divulgação.

Por que o PT não cresce em Rondônia

Robson Oliveira lembrou a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno da eleição presidencial e perguntou por que políticas sociais federais não se refletem em maior apoio eleitoral no estado. Fátima apontou a comunicação política como principal dificuldade e admitiu não saber exatamente como fazer determinadas ações do governo chegarem à população. Argumentou que parte dos beneficiários não associa os programas ao governo responsável por executá-los, citando Bolsa Família, Cadastro Único, Vale Gás e iniciativas educacionais. Ao comparar o alcance, citou 1.200 beneficiários no governo Bolsonaro e 125 mil no momento da entrevista, e afirmou que pessoas atendidas por esses programas estariam votando contra Lula.

A ex-senadora avaliou que o partido não pode atribuir todas as suas dificuldades ao ambiente conservador do estado. Reconheceu que conflitos internos tiveram participação importante no enfraquecimento da legenda: segundo seu relato, a unidade construída entre o fim dos anos 1990 e meados dos anos 2000 começou a se deteriorar a partir das disputas ocorridas entre 2008 e 2010. Questionada sobre a “autofagia petista”, respondeu que problemas mal resolvidos produziram ressentimentos e prejudicaram a construção de consensos.

Sobre a mobilização após o primeiro turno, afirmou que o movimento já estava acontecendo e citou uma manifestação em Porto Velho, destacando a presença de jovens, que segundo ela não apareciam com essa intensidade havia bastante tempo. Disse que o ato ultrapassava a militância formal do PT e reunia inclusive eleitores de direita contrários à extrema-direita. Criticou os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, referiu-se ao impeachment de Dilma Rousseff como um “golpe” e reconheceu que a composição do governo Lula inclui partidos como União Brasil e Republicanos, alianças que considera necessárias, embora acredite que limitam determinadas ações.

A eleição e a trajetória

Fátima disse ter conquistado 13.868 votos e destacou o resultado de Cláudia de Jesus, também do PT, cuja votação teria passado de cerca de 8 mil em 2022 para aproximadamente 24 mil em 2026. Em 2022, quando disputou vaga de deputada federal, afirmou ter somado cerca de 29 mil votos, insuficientes diante da votação total exigida pela federação. Aos 63 anos e na nona candidatura, contou que já havia considerado deixar as disputas e decidiu concorrer após conversas com militantes que acompanham sua trajetória há aproximadamente quatro décadas.

Filha de um pedreiro que depois atuou como comerciante e de uma dona de casa que complementava a renda com atividades autônomas, relatou ter estudado como bolsista e se mudado para o Rio de Janeiro aos 14 anos, numa época em que Rondônia não oferecia as mesmas possibilidades de ensino superior. Participou de movimentos sindicais, de organizações de professores e de mobilizações de mulheres, citando a Associação de Professores de Porto Velho e a Associação de Professores de Rondônia, num processo que resultou na criação do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Rondônia, o Sintero.

Contou que o interesse pelas questões ambientais antecedeu a filiação ao PT e que chegou a considerar o Partido Verde, mas a morte do ambientalista Chico Mendes, em 1988, contribuiu para sua aproximação com os petistas. Resumiu o período com a expressão de que era “verde por fora e vermelha por dentro”, e afirmou nunca ter se filiado a outra legenda.

Ao recordar 2002, quando presidia o PT em Rondônia, relatou que Eduardo Valverde abriu mão de uma candidatura ao governo para disputar a Câmara dos Deputados, o que permitiu a construção de uma aliança com o PDT. Naquele ciclo foi eleita senadora, o partido elegeu deputados federais e a bancada estadual passou de duas para quatro cadeiras. Afirmou ter deixado a direção estadual com sete prefeituras, sete vice-prefeituras e aproximadamente 75 vereadores, alcançando cerca de metade da população rondoniense.

Em 2010, na disputa ao Senado, afirmou ter recebido aproximadamente 210 mil votos e terminado em terceiro lugar, resultado que considerou aquém da capacidade eleitoral do partido e que voltou a associar à fragmentação de suas forças políticas.

Sobre o futuro, apontou as eleições municipais de 2028 como oportunidade de recuperar a presença partidária nas câmaras de vereadores. Disse que sua prioridade será representar o eleitorado que a elegeu, mas também manifestou intenção de dialogar com pessoas de outras orientações políticas, incluindo eleitores identificados com a direita. Na despedida, Robson Oliveira observou que ela terá quatro anos para manter presença e prestar contas à população de Rondônia.

As frases da entrevista

As dez declarações que marcaram a conversa, com o contexto em que foram ditas.

1
“Foi mal interpretado. E acho que houve má-fé de quem me entrevistou, porque descontextualizou a minha fala.”
Fátima Cleide responsabilizou a condução e a repercussão de uma entrevista anterior pela controvérsia sobre suas declarações a respeito da Polícia Militar. Segundo ela, foram deixadas de lado manifestações favoráveis à valorização salarial, a concursos e à ampliação do efetivo. A entrevistada não identificou nominalmente o profissional a quem atribuía a suposta má-fé.
2
“Olha só, isso é uma sacanagem. Me perdoe o termo. E eu acho que isso também é uma violência política. Traz misoginia, traz preconceito e traz medo da minha atuação.”
A reação veio depois que Robson Oliveira questionou a permanência da parlamentar em Brasília e afirmou que ela teria sido eleita sem residir em Rondônia. Fátima considerou o questionamento preconceituoso, associou a crítica à sua condição de mulher e defendeu sua atuação no governo federal como continuidade dos vínculos com o estado.
3
“O agro quer ganhar cada vez mais, quer ter muito mais lucro com menos respeito àquilo que a gente civilizadamente construiu como direitos trabalhistas.”
A declaração ocorreu durante a discussão sobre as divergências entre a esquerda e o agronegócio. Fátima sustentou que o conflito está no cumprimento de direitos trabalhistas e na fiscalização das relações de trabalho. Em seguida, ressalvou que a avaliação não alcança todos os produtores rurais.
4
“O próprio estado de Rondônia agora está na lista do trabalho escravo, o próprio estado de Rondônia, por conta de contratar empresas que contratam trabalho análogo à escravidão, terceirizadas.”
A ex-senadora usou a afirmação para discutir a responsabilidade do poder público na fiscalização das condições de trabalho. Trata-se de alegação da entrevistada: durante o programa não foram apresentados documentos que identificassem as contratações, as empresas envolvidas ou a lista mencionada.
5
“Não me referi especificamente à Polícia Militar de Rondônia, me refiro à Polícia Militar como um todo no Brasil.”
A parlamentar negou ter classificado a corporação rondoniense como uma das mais letais do país. Segundo sua explicação, as declarações anteriores tratavam da letalidade policial em âmbito nacional, com referência a dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
6
“Nós somos uma força que está adormecida. Uma parte de nós está acomodada.”
Fátima usou as expressões ao avaliar a situação do PT em Rondônia. Na sua interpretação, parte da militância passou a aceitar as dificuldades eleitorais como consequência inevitável do perfil conservador do estado, em vez de investir na reorganização partidária.
7
“A gente internamente não tratou muito bem e aí a gente chega nesse resultado de eleger um deputado só ao PT.”
A declaração surgiu na discussão sobre conflitos internos da legenda. A ex-presidente estadual do partido reconheceu que divergências mal resolvidas produziram desgastes. A referência a uma só cadeira foi feita ao analisar a perda de força da legenda, e não como descrição da bancada eleita em 2026.
8
“Nós estamos respirando, comendo e bebendo veneno.”
A frase foi usada ao manifestar preocupação com a exposição da população a agrotóxicos. Fátima mencionou atividades agrícolas de grande e pequena escala, pulverizações e descarte inadequado de embalagens, e citou um número que disse ter conhecido em visita ao Ibama, sem apresentar documentação ou estudos que confirmassem a dimensão descrita.
9
“E essas pessoas estão votando contra o Lula.”
A afirmação veio na discussão sobre a dificuldade do PT para converter programas sociais em apoio eleitoral. Ela citou beneficiários do Bolsa Família e de outras políticas, argumentando que falta comunicação sobre a atuação do governo federal. A entrevista não apresentou pesquisas capazes de demonstrar o comportamento eleitoral desse grupo.
10
“E eu nunca fiquei longe das bases.”
Fátima rejeitou a interpretação de que o trabalho em Brasília significou afastamento de Rondônia. Mencionou a participação na transição presidencial de 2022, a atuação na Secretaria-Geral da Presidência e a passagem pelo Ministério das Mulheres, além de contatos com instituições federais de ensino do estado.

A conversa completa com Fátima Cleide, de cerca de 40 minutos, está disponível no podcast Resenha Política, apresentado pelo jornalista Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, e pode ser assistida na íntegra no vídeo reproduzido no início desta reportagem.

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)





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