Informa Rondônia
JUROS

André Lara Resende atribui o desequilíbrio das contas públicas aos juros do Banco Central e propõe novo regime fiscal

Cédulas e moedas de real
Pronto
0%Atalhos: Espaço (play/pausa), S (parar), ←/→ (volta/avança)
🛠️ Acessibilidade:

Economista que ajudou a formular o Plano Real afirma que o país gastou mais de R$ 1,1 trilhão com juros em 12 meses e defende metas de despesa e de taxa anunciadas em conjunto por quatro a cinco anos

Por Yan Simon - segunda-feira, 02/11/2026 - 14h53

Informa Rondônia Compartilhe esta reportagem
0 ações
Link copiado.

Porto Velho, RO – Um artigo do professor André Lara Resende, um dos economistas da equipe que elaborou o Plano Real, tem ganhado destaque nos últimos dias por acusar o Banco Central (BC) de causar o desequilíbrio fiscal no Brasil por meio das altas taxas de juros. No texto, intitulado “Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos”, ele defende novas regras para as despesas e os juros no país.

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu.

Ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Lara Resende é formado pela PUC do Rio de Janeiro e tem PhD em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, além de ter atuado em instituições financeiras no Brasil. Ele questiona a teoria econômica defendida pelo mercado financeiro e pela autoridade monetária para justificar a taxa Selic em 13,75% ao ano. Segundo ranking da Moneyou, o Brasil tem a taxa de juros real mais alta do mundo.

Escrito às vésperas do primeiro turno eleitoral, o artigo também acusou “todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade”.

O Banco Central justifica os juros elevados, entre outros motivos, pelas pressões inflacionárias e pelos déficits fiscais primários nas contas públicas, situação em que as despesas superam as receitas, excluídos os gastos com a dívida. Para a autoridade monetária, gastos primários maiores que a arrecadação pressionam a inflação.

Lara Resende reconhece que o Brasil gasta mal e aloca recursos de forma “irracional”, como nos casos das emendas parlamentares, das vantagens salariais do Judiciário e das isenções tributárias “de toda ordem”. Ainda assim, demonstra que o país tem um déficit fiscal pequeno, entre os menores do mundo. “Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas. A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida”, escreveu.

A dívida pública brasileira cresceu de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para cerca de 82,9% do PIB em agosto de 2026. Para combater esse aumento, analistas do mercado financeiro têm cobrado corte de despesas da União, o que tende a afetar as políticas sociais.

O professor considera insustentável o crescimento da dívida, mas destaca que o problema não está nos gastos primários, que são as despesas com serviços públicos. “Nos últimos anos, exceto durante a Covid, o resultado primário foi apenas ligeiramente negativo; já o déficit nominal, puxado pelos juros, foi sempre alto e agora aproxima-se de 10% do PIB”, explicou.

No artigo, publicado no Substack, ele afirmou ainda que “o equilíbrio das contas públicas não é uma condição necessária e nem suficiente para o bom funcionamento da política econômica”. Nos últimos 12 meses, os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão do orçamento, ou 8,9% do PIB, e a conclusão do economista é que a redução da taxa é a solução para o desequilíbrio fiscal brasileiro.

O Banco Central sustenta que a atual taxa de juros é necessária para manter a inflação sob controle, uma vez que a Selic elevada inibe o crescimento econômico e a demanda, forçando uma queda dos preços. Os comunicados oficiais do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a Selic, apontam como fatores que contribuem para a inflação o aquecimento da economia e do mercado de trabalho e a trajetória dos gastos públicos.

“O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros”, diz a última ata do Copom.

Lara Resende questiona a tese de que o BC não tem alternativa para controlar a inflação além dos juros elevados. Para ele, não há mais uma relação inversa entre desemprego e inflação, que sugere que o aumento do desemprego, um dos resultados dos juros altos, reduz a inflação. “A fragilidade conceitual e empírica deste modelo macro convencional que pauta a política dos BCs é tão flagrante que, apesar de ainda dominante e repetido na mídia como verdade incontestável, passou a ser criticado até mesmo pelos economistas mais conservadores”, diz.

Por outro lado, o economista reconhece que a redução dos juros traz um aumento da inflação, mas sustenta que essa é uma relação de “curto prazo” e transitória.

Ele aponta que não há corte de gastos possível que interrompa o crescimento da dívida em relação ao PIB sem uma redução do juro para “em torno da taxa de crescimento nominal da economia”. Como proposta, sugere um novo regime fiscal e monetário para o Brasil, com um planejamento de metas fiscais e de juros por um período mais longo, de quatro a cinco anos, a serem anunciadas de forma conjunta.

O especialista acrescenta que a intervenção do BC no mercado de câmbio deve ser necessária para evitar qualquer depreciação mais intensa do real. “Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso”, escreveu.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)





COMENTÁRIOS: