Relatório indica concentração de óbitos em regiões pobres, desaceleração na redução da mortalidade e alerta para milhões de mortes evitáveis até 2030
Porto Velho, RO – A concentração das mortes infantis segue desigual no mundo e atinge com maior intensidade regiões mais vulneráveis. Em 2024, a África Subsaariana respondeu por 58% dos óbitos de crianças menores de cinco anos, enquanto o Sul da Ásia concentrou 25%. Nessas localidades, doenças infecciosas e complicações no início da vida foram responsáveis pela maior parte das mortes, refletindo limitações no acesso a serviços básicos de saúde.
Segundo relatório do Grupo Interagencial das Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil, cerca de 4,9 milhões de crianças morreram antes de completar cinco anos no planeta em 2024. A maioria dos casos foi associada a causas evitáveis ou tratáveis com intervenções de baixo custo.
Entre os óbitos registrados, aproximadamente 2,3 milhões ocorreram ainda no período neonatal. Prematuridade e complicações durante o parto responderam por grande parcela das mortes, além de infecções e anomalias congênitas. O documento aponta que essas condições poderiam ser reduzidas com cuidados pré-natais adequados, presença de profissionais qualificados e assistência especializada ao recém-nascido.
Em países afetados por conflitos ou com estruturas frágeis, o risco de morte infantil é significativamente maior. Crianças nascidas nesses contextos apresentam quase três vezes mais probabilidade de morrer antes dos cinco anos em comparação a outras regiões.
Apesar de uma queda global superior a 50% desde 2000, o avanço perdeu ritmo na última década. A partir de 2015, a redução da mortalidade infantil desacelerou mais de 60%. Caso a tendência atual seja mantida, a ONU estima que 27,3 milhões de crianças poderão morrer antes dos cinco anos entre 2025 e 2030, sendo quase 13 milhões ainda no período neonatal.
O cenário é influenciado por fatores acumulados, como pobreza, conflitos, eventos climáticos e fragilidade dos sistemas de saúde. O relatório reforça que há necessidade urgente de ampliar investimentos e fortalecer ações voltadas à sobrevivência infantil.
No Brasil, o levantamento aponta avanços consistentes ao longo das últimas décadas. Em 1990, a taxa de mortalidade neonatal era de 25 mortes a cada mil nascidos vivos, número que caiu para sete em 2024. Já a mortalidade de menores de cinco anos recuou de 63 por mil para 14,2 no mesmo período.
Esse resultado foi atribuído a políticas públicas como o Programa Saúde da Família, a atuação de agentes comunitários e a ampliação da atenção básica. De acordo com o Unicef, essas iniciativas contribuíram para reduzir mortes evitáveis e ampliar o acesso aos serviços de saúde.
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A chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Luciana Phebo, afirmou que milhares de crianças que antes não sobreviveriam hoje conseguem se desenvolver e alcançar a vida adulta. Ela destacou que o avanço foi possível devido a investimentos em vacinação e incentivo à amamentação, mas alertou para a necessidade de retomar o ritmo de progresso.
Mesmo com os resultados positivos, o país também acompanha a tendência global de desaceleração. Entre 2000 e 2009, a queda anual da mortalidade neonatal era de 4,9%. Entre 2010 e 2024, passou para 3,16% ao ano.
O relatório também registrou cerca de 2,1 milhões de mortes entre crianças, adolescentes e jovens de 5 a 24 anos em 2024. Entre adolescentes, os principais riscos variam por gênero: suicídio lidera entre meninas de 15 a 19 anos, enquanto acidentes de trânsito são a principal causa entre meninos.
No Brasil, a violência foi responsável por 49% das mortes de meninos nessa faixa etária. Já entre meninas, predominam doenças não transmissíveis, seguidas por doenças transmissíveis, violência e suicídio.
As metas globais estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável preveem a redução da mortalidade infantil até 2030. No entanto, estimativas indicam que 60 países podem não atingir os índices para menores de cinco anos, enquanto 66 países correm risco de não cumprir as metas relacionadas aos recém-nascidos.
Isso representa mais de 400 milhões de crianças vivendo em países com alto risco de não alcançar os objetivos. Caso as metas fossem cumpridas, cerca de 8 milhões de vidas poderiam ser salvas até 2030.
O relatório destaca que investimentos em saúde infantil apresentam alto retorno. Intervenções como vacinação, combate à desnutrição e assistência qualificada no pré-natal, parto e pós-parto são consideradas eficazes e de baixo custo. Segundo o documento, cada dólar investido na sobrevivência infantil pode gerar até 20 dólares em benefícios sociais e econômicos.
Diante desse cenário, a ONU recomenda a ampliação de recursos, fortalecimento da atenção primária e priorização de regiões com maior risco, especialmente na África Subsaariana, no Sul da Ásia e em áreas afetadas por conflitos.
Com informações de: Agência Brasil
