Sem estrutura operacional comprovada a poucos dias da troca de prestadora, capital corre risco real de colapso na limpeza urbana e crise de saúde pública
A iminente troca na operação da coleta de lixo em Porto Velho expõe um problema que vai muito além de uma simples transição contratual: revela o grau de risco assumido quando decisões administrativas avançam mais rápido do que a capacidade material de execução do serviço público essencial. Se as informações apuradas estiverem corretas, a capital de Rondônia pode estar diante de uma aposta institucional de consequências severas, feita justamente em um setor onde falhas não geram apenas desconforto urbano, mas ameaça concreta à saúde coletiva.
O ponto central da controvérsia não reside em mera disputa empresarial ou em resistência à substituição de prestadora. O núcleo do problema é objetivo: faltando poucos dias para o início previsto da nova operação, a empresa designada para assumir o serviço ainda não teria apresentado estrutura mínima indispensável para executar a coleta de resíduos de uma cidade com quase 500 mil habitantes. A ausência de filial física instalada, de quadro funcional contratado, de garagem licenciada e de logística adequada para atender regiões específicas como o Baixo Madeira compõe um cenário que, por si só, compromete qualquer narrativa de normalidade administrativa.
Em serviços públicos dessa natureza, planejamento não é formalidade burocrática; é requisito operacional básico. Coleta de lixo não admite curva de aprendizagem improvisada nem fase experimental. Ou a estrutura existe integralmente antes do início da operação, ou o município assume deliberadamente o risco de descontinuidade. E, nesse caso, a interrupção de poucos dias já seria suficiente para produzir impactos visíveis na paisagem urbana, na proliferação de vetores e na pressão sobre o sistema de saúde, sobretudo em uma capital amazônica submetida a condições climáticas que aceleram a deterioração de resíduos orgânicos.

A gravidade aumenta quando se observa que a atual prestadora deverá permanecer apenas até 22 de abril, comprimindo o prazo de transição a um intervalo que, segundo avaliações técnicas relatadas nos bastidores, seria insuficiente para estruturar uma operação dessa magnitude do zero. Não se trata, portanto, de mera dificuldade logística pontual, mas de questionamento sobre a própria viabilidade material do cronograma estabelecido.
Também pesa sobre o debate o histórico recente atribuído à empresa Sistemma em outros municípios. Registros de greve de garis e denúncias sobre condições operacionais em Belo Horizonte, mediação judicial em dissídio coletivo em Londrina e menção da razão social vinculada à empresa em investigação do Ministério Público em Itumbiara ampliam a preocupação institucional em torno da escolha. Ainda que situações em outros contratos não constituam, por si sós, prova definitiva de incapacidade operacional presente, compõem um conjunto de antecedentes que naturalmente exige vigilância redobrada do poder público.
Mais do que uma discussão sobre contrato, Porto Velho enfrenta agora um teste de governança. A administração municipal precisará demonstrar, com fatos concretos e não apenas garantias formais, que a nova contratada possui condições reais de assumir um serviço vital sem ruptura. Quando a coleta de lixo entra em colapso, não é apenas a gestão que sofre desgaste político: é a população inteira que paga o preço em ruas tomadas por resíduos, deterioração sanitária e sensação de abandono.
Se houver falha na transição, não será possível alegar surpresa. Os alertas estão postos antes do problema ocorrer. E quando uma crise é previsível, sua eventual concretização deixa de ser acidente administrativo para se aproximar perigosamente da negligência.





