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CANETAS EMAGRECEDORAS
Uso de canetas emagrecedoras reacende debate sobre padrões corporais e pressão estética no Brasil

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Especialista da USP analisa impactos sociais, culturais e de saúde mental associados à popularização de medicamentos para emagrecimento

Por Yan Simon - domingo, 03/05/2026 - 12h56

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Porto Velho, RO – A intensificação da busca por emagrecimento rápido, impulsionada pelo uso de medicamentos injetáveis, tem ampliado discussões sobre padrões corporais e seus efeitos na sociedade. O fenômeno, que inclui o crescimento do uso das chamadas canetas emagrecedoras, vem sendo associado a um cenário em que a magreza passa a ser tratada como solução imediata e amplamente comercializada.

De acordo com a professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Fernanda Scagluiza, esse contexto está relacionado ao que ela define como “economia moral da magreza”. Nesse modelo, determinados tipos de corpo recebem valores sociais distintos. Corpos magros ou musculosos tendem a ser associados a disciplina e controle, enquanto corpos gordos são frequentemente ligados a estereótipos negativos, como falta de esforço ou competência, o que não corresponde à realidade.

A especialista explica que essa lógica influencia diretamente as relações sociais. Pessoas com corpos dentro do padrão considerado ideal acabam acumulando vantagens em áreas como trabalho, educação e relacionamentos, enquanto indivíduos fora desse padrão enfrentam exclusões e limitações. Segundo ela, a existência de privilégios para um grupo implica, simultaneamente, perda de direitos para outro.

A formação desses padrões não é recente. Conforme Scagluiza, eles se transformam ao longo do tempo, mas sempre mantêm um elemento comum: a exclusão de parte da população. A definição de um ideal corporal, seja de extrema magreza ou de um corpo altamente musculoso, inevitavelmente deixa indivíduos de fora e alimenta um mercado voltado à oferta de soluções para alcançar esse padrão.

Nesse contexto, a pressão estética não se limita a pessoas com obesidade. A professora avalia que mesmo indivíduos considerados dentro de um peso padrão continuam submetidos a cobranças constantes. Ela afirma que “toda gordura será castigada”, destacando que qualquer variação corporal pode ser vista como problema a ser corrigido. Esse cenário afeta de forma mais intensa as mulheres, embora existam diferenças ainda pouco exploradas entre diferentes grupos.

A popularização das canetas emagrecedoras também ocorre paralelamente a mudanças sociais recentes. A docente avalia que, após avanços promovidos por movimentos de valorização da diversidade corporal a partir dos anos 2010, há indícios de retomada de padrões mais restritivos. Ela menciona relatos sobre o mercado da moda, onde modelos já considerados muito magras estariam utilizando roupas que precisam ser ajustadas por estarem largas, indicando um possível retorno à valorização da magreza extrema.

Além dos aspectos sociais, a especialista chama atenção para o processo de medicalização da alimentação. Segundo ela, práticas tradicionalmente ligadas à cultura e ao convívio social passaram a ser tratadas como intervenções médicas. Em estudos conduzidos por sua equipe, mulheres que utilizaram esses medicamentos chegaram a descrever as canetas como uma espécie de “vacina contra fome”, indicando uma mudança na relação com o ato de comer.

O levantamento também identificou comportamentos de restrição alimentar intensificada, inclusive com o uso de efeitos colaterais, como náuseas, para reduzir a ingestão de alimentos. Em um dos relatos, uma usuária afirmou que encontrou nesse método uma forma de “fechar a boca num nível radical” para alcançar o emagrecimento.

Para Scagluiza, esse cenário pode trazer consequências relevantes para a saúde mental e para a vida social. Ela questiona como ficam os aspectos simbólicos e culturais da alimentação diante desse processo. A especialista reforça que a alimentação saudável é um direito humano e está relacionada não apenas à nutrição, mas também à qualidade de vida, à vitalidade e à prevenção de doenças.

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO) – LinkedIn





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