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PITACO DA CASA
Professora Mallu rompe o silêncio da burocracia e faz Daniel voar além das fronteiras invisíveis da escola pública

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Entre 268,4 mil estudantes da rede pública de Rondônia, o talento de Daniel da Silva de Oliveira poderia ter permanecido anônimo; mas a insistência da professora Maria Luzia Ferreira, somada ao apoio da imprensa, da Assembleia Legislativa e do Governo do Estado, transformou uma possibilidade improvável em conquista coletiva

Por Vinicius Canova - quinta-feira, 14/05/2026 - 18h56

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No universo de aproximadamente 268,4 mil estudantes matriculados no ensino público de Rondônia, segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, baseados no Censo Escolar do MEC/Inep, a história de Daniel da Silva de Oliveira tinha tudo para se dissolver no anonimato estatístico. Um entre 101,9 mil alunos dos anos iniciais, 99,4 mil dos anos finais do ensino fundamental e 67,1 mil estudantes do ensino médio. Um rosto qualquer entre centenas de milhares de outros rostos. Um talento invisível, como tantos frequentemente são. Desta vez, porém, houve insistência. Houve obstinação. Houve professora.

A conquista do estudante da Escola Estadual Maria Nazaré dos Santos, em Jaci-Paraná, selecionado para representar Rondônia na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói, não parece ser apenas a vitória individual de um adolescente interessado em stop motion. Tampouco pode ser reduzida ao mérito isolado de uma escola. O episódio se desenha como algo maior: a demonstração concreta de que, quando os elos certos se encontram, o improvável deixa de ser exceção e passa a ser possibilidade.

Mas é precisamente aqui que emerge a figura da professora Maria Luzia Ferreira, a Mallu. Porque, ao que os fatos apresentados indicam, foi dela o gesto inaugural que alterou o curso de uma trajetória que poderia facilmente permanecer invisível. Foi ela quem enxergou além do exercício escolar. Foi ela quem identificou potencial onde tantos talvez vissem apenas mais um aluno da zona rural. Foi ela quem insistiu.

O interesse de Daniel pela técnica de stop motion começou ainda no 8º ano, durante uma atividade de Artes proposta dentro da escola. Depois, segundo os registros do próprio Governo do Estado, o envolvimento avançou. Já no 9º ano, Mallu criou um curso no contraturno, aprofundando a formação dos estudantes. Daniel permaneceu o dia inteiro na escola, aperfeiçoando técnicas, desenvolvendo projetos e insistindo sobre o próprio aprendizado, mesmo diante das dificuldades inerentes à distância e à realidade de quem vive em área rural.

Em um estado onde o poder público é frequentemente cobrado justamente pela ausência de capilaridade para alcançar talentos periféricos, a insistência de Mallu parece ter funcionado como ponte. Ou talvez como tradução. Porque genialidade, no Brasil, nem sempre basta. Quase nunca basta. Talento desacompanhado costuma morrer abafado pelo ruído burocrático, pela lentidão institucional, pela falta de prioridade e, não raramente, por interesses distantes das urgências reais da sociedade.

Daniel teve algo raro: alguém disposto a não deixá-lo desaparecer.

A reportagem publicada pelo Informa Rondônia em 17 de abril de 2026 exerceu papel importante nesse processo ao ampliar a visibilidade do caso. Depois dela, outros veículos de comunicação passaram a repercutir a trajetória do estudante, frequentemente associada à presença persistente da professora Mallu, figura central na construção dessa caminhada. A história deixou de ser apenas um feito escolar e passou a circular no espaço público, atraindo olhares para um talento que, até então, permanecia restrito às salas de aula de Jaci-Paraná.

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E aqui cabe um reconhecimento institucional que, desta vez, parece ter funcionado.

A Presidência da Assembleia Legislativa de Rondônia respondeu. O presidente da Casa, Alex Redano, recebeu Daniel e reconheceu o esforço do estudante, da professora e da gestão escolar. Mais do que simbolismo, houve providência prática. “Recebi o jovem Daniel, aluno da Escola Maria Nazaré, de Jaciparaná, morador da área rural, que conquistou a oportunidade de representar Rondônia no Congresso da SBPC, no Rio de Janeiro. Parabenizo o Daniel pelo empenho, a professora Malu pelo incentivo e toda a equipe gestora da escola por esse olhar transformador. Conseguimos viabilizar a passagem para garantir essa participação, reforçando nosso compromisso de apoiar também os talentos da área científica”, registrou o mandatário da Assembleia.

Depois, o Governo de Rondônia também somou forças. A gestão do governador Marcos Rocha, do PSD, por meio da Secretaria de Estado da Educação, incorporou a pauta institucionalmente. O secretário Massud Badra exaltou o papel pedagógico desempenhado pela professora e o protagonismo estudantil de Daniel, enquanto a própria Seduc transformou o caso em exemplo de incentivo à ciência, à criatividade e à educação pública. A engrenagem, dessa vez, funcionou.

E isso precisa ser dito com clareza: todos acertaram.

Acertou a professora que recusou o conformismo. Acertou a escola ao sustentar iniciativas pedagógicas diferenciadas. Acertou a imprensa ao iluminar uma história que poderia ter morrido no esquecimento. Acertou o presidente da Assembleia ao garantir condições concretas para a participação do estudante. Acertou o Governo do Estado ao reconhecer institucionalmente uma experiência que simboliza algo maior do que um prêmio, um evento ou uma viagem: simboliza pertencimento.

Porque havia um Grand Canyon separando Daniel daquilo que agora parece simples. Entre um estudante da zona rural de Jaci-Paraná e uma das maiores reuniões científicas do país existiam distâncias econômicas, logísticas, institucionais e simbólicas. A mão do poder público — sempre tão disputada, tantas vezes inacessível — parecia improvável. Mallu, no entanto, serviu de liame entre dois mundos que frequentemente não se encontram.

Só que talvez a parte mais desconfortável dessa história esteja justamente fora dela.

Se desta vez deu certo, o que acontece nas outras?

Quantas Mallus existem espalhadas pelas escolas brasileiras, insistindo contra o cansaço, tentando convencer adultos ocupados demais, burocracias lentas demais e instituições frequentemente impermeáveis ao improviso da esperança? Quantas passam meses levando portas na cara, suportando intermináveis chás de cadeira, retornando para salas de aula com o peso da frustração de quem tentou abrir caminhos para alguém — e não conseguiu?

Quantos Daniels permanecem invisíveis?

Porque, no fim do dia, talvez a pergunta mais incômoda seja justamente esta: quantas professoras precisam voltar para casa obrigadas a dar aos seus alunos a notícia que ninguém quer ouvir — a de que, apesar do talento, apesar do esforço, apesar do sonho, “não foi dessa vez”?

Desta vez foi. E talvez seja justamente por isso que essa história mereça ser celebrada. Não como regra. Mas como exceção que deveria, urgentemente, deixar de ser rara.

AUTOR: VINICIUS CANOVA (DRT 1066/RO) – LinkedIn





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