Pré-candidato a vice-governador fala sobre articulação com Marcos Rogério, relação com Léo Moraes, avanço das facções, atuação em defesa das pessoas com deficiência e passagem da Polícia Civil para a política
Porto Velho, RO – O deputado estadual e delegado da Polícia Civil Rodrigo Camargo negou que tenha ocorrido uma disputa interna marcada por brigas durante a formação do grupo político que o apresentou como pré-candidato a vice-governador na chapa do senador Marcos Rogério, do PL. No podcast RD Entrevista, apresentado pelo jornalista Vinícius Canova, o parlamentar também falou sobre as movimentações envolvendo o prefeito de Vilhena, Flori Cordeiro, o apoio manifestado pelo prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, as relações construídas na Assembleia Legislativa e os planos para uma eventual atuação no Poder Executivo.
A entrevista começou com a explicação de Camargo sobre a saída da atividade estritamente policial e a entrada na política. O deputado contou que a própria esposa, que atua como juíza de Direito, perguntou se ele preferia ser delegado ou parlamentar. A resposta foi que, naquele momento, considerava o mandato político mais capaz de produzir resultados amplos para a população.
Para explicar a escolha, Camargo relembrou um episódio ocorrido em 2021, quando exercia a função de delegado regional. A presidente de uma Apae procurou a delegacia após o furto das duas baterias do ônibus utilizado para transportar crianças atendidas pela instituição. Sem dinheiro em caixa para adquirir novos equipamentos, a entidade não conseguia realizar o transporte.
Camargo determinou que investigadores procurassem as baterias em locais que comercializavam objetos usados e verificou a possibilidade de ceder provisoriamente equipamentos apreendidos cujos proprietários não haviam sido identificados. Segundo ele, esse era o alcance possível de sua atuação como delegado.
“Como delegado regional, com mais de 12 anos de serviços prestados ao Estado de Rondônia, o máximo que a minha caneta conseguiu fazer foi emprestar duas baterias velhas para a Apae. Quando entrei como deputado, peguei 100% das minhas emendas individuais e destinei às Apaes”, afirmou.
De acordo com Camargo, foram encaminhados aproximadamente R$ 5 milhões para a compra de veículos adaptados. A previsão inicial era adquirir 38 automóveis, um para cada unidade da instituição em Rondônia. Com os rendimentos obtidos durante a tramitação do processo, teria sido possível comprar um 39º veículo.
“A caneta de delegado conseguiu duas baterias velhas, que depois teriam de ser devolvidas. A caneta de deputado conseguiu 39 veículos zero quilômetro e adaptados. Era a mesma pessoa, com a mesma intenção, mas utilizando canetas diferentes”, comparou.
O parlamentar afirmou que esse resultado ajudou a consolidar sua decisão de permanecer na política. Segundo Camargo, a função parlamentar ampliou a capacidade de atendimento às pessoas que já procurava auxiliar durante a carreira na segurança pública.
A defesa das pessoas com deficiência também apareceu entre os principais temas da conversa. Camargo relatou que é pai de um menino autista com deficiência intelectual e marido de uma mulher diagnosticada com autismo e altas habilidades. Ele se definiu como pai e marido atípico e disse que a experiência familiar influencia diretamente suas prioridades políticas.
Segundo o deputado, uma gestão pública precisa assegurar que crianças com deficiência encontrem estrutura adequada nas escolas, incluindo monitor em sala de aula, cuidador no pátio e plano individualizado de ensino. Camargo afirmou que pretende acompanhar essa área mesmo que a segurança pública seja o setor mais associado à sua trajetória profissional.
A definição da pré-candidatura a vice-governador foi abordada após Vinícius Canova recordar as diferentes movimentações que antecederam a composição. O apresentador mencionou que Camargo havia sido relacionado inicialmente a outras disputas e que o prefeito de Vilhena, Flori Cordeiro, também apresentou um projeto político respaldado por Léo Moraes.
Questionado sobre a possibilidade de ter ocorrido uma briga interna, Camargo rejeitou essa versão. O deputado disse que as conversas foram conduzidas diretamente entre os envolvidos e afirmou que as notícias sobre desentendimentos faziam parte de rumores comuns no ambiente eleitoral.
“Muitas pessoas disseminaram que teria ocorrido uma briga. Isso não aconteceu. Foi algo conversado, dialogado, olho no olho e sem problema algum”, declarou.
Camargo afirmou que seu projeto inicial era disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Ao longo das articulações, porém, o grupo teria avaliado que sua participação poderia ser mais útil em uma candidatura ao Executivo estadual.
O pré-candidato disse não possuir um projeto pessoal de poder e sustentou que a escolha do cargo deveria considerar o espaço no qual pudesse produzir mais resultados. Segundo ele, a decisão de integrar a chapa de Marcos Rogério não foi tomada para garantir uma posição eleitoral mais confortável.
A possibilidade de abandonar uma provável tentativa de reeleição à Assembleia para concorrer à vice-governadoria também foi discutida. Camargo afirmou que possui uma carreira efetiva como delegado e que a esposa é magistrada, situação que já asseguraria estabilidade financeira à família.
“Eu não vim para a política para ficar rico. Eu não vim para a política para ter poder. Eu vim para servir as pessoas. Quando se tem o espírito de servir, não importa se será no Parlamento, no Executivo ou em outra função”, afirmou.
A relação com Marcos Rogério foi abordada diante da avaliação de que Camargo costuma ocupar espaços de destaque e adotar posições firmes. O deputado foi questionado sobre o risco de, em uma eventual administração, tentar se sobrepor ao governador.
Camargo negou essa possibilidade e afirmou reconhecer a trajetória mais longa de Marcos Rogério. Ele lembrou que o senador já exerceu os cargos de vereador, deputado federal e senador, além de ter disputado anteriormente o Governo de Rondônia.
“Eu tenho três anos e meio de vida política. Estou começando. Marcos Rogério já foi vereador, deputado federal, senador e candidato ao Governo do Estado. É indiscutível que ele possui uma caminhada política mais extensa do que a minha”, declarou.
O deputado avaliou que Marcos Rogério amadureceu após a eleição de 2022. Segundo Camargo, o próprio senador reconhece que deixou de dialogar naquele pleito e atualmente passou a realizar uma escuta mais ampla durante as articulações.
Para Camargo, seu papel na chapa seria auxiliar Marcos Rogério com dados, informações orçamentárias e conhecimento sobre o funcionamento das secretarias estaduais. Ele rejeitou a interpretação de que os dois teriam combinado uma divisão na qual o deputado faria os ataques, enquanto o senador apresentaria uma campanha exclusivamente propositiva.
“Não há divisão de papéis porque nós não somos atores tentando parecer algo que não somos. Existe uma preocupação real com o destino do Estado”, respondeu.
Em apenas um trecho da entrevista, Camargo concentrou as críticas diretas ao Governo de Rondônia. Ele classificou a administração como “péssima em todas as áreas”, citou filas para endoscopias e eletrocardiogramas, dificuldades enfrentadas por pacientes do interior, redução proporcional dos recursos da assistência social, ausência de concursos para forças de segurança, uso excessivo de cargos comissionados no DER e sigilo relacionado a viagens oficiais. O deputado também afirmou que o próximo governador poderá encontrar um cenário de “terra arrasada” e declarou que a gestão estadual passou a priorizar contratos e pessoas jurídicas em detrimento do atendimento direto à população.
A conversa sobre o posicionamento ideológico do grupo passou pela relação que uma eventual administração estadual manteria com o Governo Federal. Vinícius Canova perguntou se a composição formada ao redor de Marcos Rogério não seria excessivamente conservadora e se teria capacidade de dialogar com setores de centro ou de esquerda.
Camargo respondeu citando a atuação do prefeito Léo Moraes na recepção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante uma agenda relacionada à destinação de recursos para um hospital municipal em Porto Velho. Segundo o deputado, o prefeito adotou a conduta esperada de um gestor ao separar divergências partidárias das necessidades administrativas.
“Dinheiro público não tem cara de partido ou de ideologia. Não existe dinheiro de esquerda, de direita ou de centro. O dinheiro é meu, é seu e é de todos nós”, afirmou.
Embora tenha declarado que trabalhará, rezará e pedirá votos para impedir a reeleição de Lula, Camargo disse que respeitaria o resultado das urnas. Caso o presidente conquiste um novo mandato e a chapa de Marcos Rogério vença em Rondônia, o deputado afirmou que o Governo do Estado deverá manter diálogo institucional com Brasília.
“Caso uma tragédia aconteça e Lula seja reeleito, ele será o presidente da República. Se estivermos no Governo do Estado, não tenha dúvida de que Marcos Rogério e, se for preciso, Camargo irão ao Governo Federal pedir recursos para Rondônia”, declarou.
O deputado afirmou que o interesse da população deve ficar acima das diferenças ideológicas. Ele apresentou a postura de Léo Moraes como exemplo de que um gestor pode manter suas posições políticas e, ao mesmo tempo, dialogar com autoridades de campos opostos para obter investimentos.
A segurança pública ocupou uma parte extensa da entrevista. Camargo afirmou que o vídeo utilizado para anunciar sua pré-candidatura apresentou imagens fortes porque pretendia chamar atenção para situações que, segundo ele, já ocorrem em Rondônia.
O delegado mencionou a execução de um motorista de aplicativo que teria sido registrada por integrantes de um tribunal do crime. Também relatou que empresários do Cone Sul estariam recebendo ligações de integrantes de facções exigindo percentuais sobre o faturamento.
Em um dos casos narrados, um proprietário de provedor de internet teria sido pressionado a entregar 30% da receita da empresa. Após recusar a exigência, teria enfrentado um incêndio e danos à rede de fibra óptica.
Camargo também falou sobre o consumo de cocaína em escolas e a presença de grupos criminosos em áreas de Porto Velho. Segundo ele, existiriam locais nos quais motoristas precisariam baixar os vidros dos veículos, identificar-se e cumprir regras impostas por facções para entrar.
“O Estado e as forças policiais precisam recuperar os territórios que as facções criminosas tomaram, seja na sociedade, seja dentro dos presídios, porque o crime está sendo comandado de dentro das unidades prisionais”, afirmou.
O parlamentar disse que o primeiro passo para melhorar a segurança é a ocupação dos territórios pelas forças policiais. Para ele, a presença estatal deve alcançar tanto os bairros quanto as unidades prisionais utilizadas como bases de comando por grupos criminosos.
Apesar da formação como delegado, Camargo negou que exista um acordo para assumir a Secretaria de Estado da Segurança Pública em uma eventual gestão de Marcos Rogério. O pré-candidato disse que não pretende restringir sua atuação a uma única área.
“Não tem nada combinado e eu não tenho pretensão de exercer essa função. O meu papel na vice-governadoria seria ajudar o governador Marcos Rogério no processo de decisões”, explicou.
Segundo Camargo, o comando de uma secretaria exigiria dedicação concentrada e limitaria o acompanhamento de outras políticas. Ele afirmou preferir uma atuação abrangente, com atenção à segurança, à saúde, à educação e às demandas das famílias atípicas.
A relação do deputado com os demais integrantes da Assembleia Legislativa voltou à pauta quando o apresentador citou uma discussão com Jean de Oliveira. Durante o episódio mencionado, Jean teria afirmado que ninguém na Assembleia gostava de Camargo.
O delegado respondeu inicialmente com uma acusação dirigida ao colega e ao pai dele, que, segundo afirmou, haviam sido condenados por corrupção. Depois, ao ser perguntado de maneira mais ampla sobre os outros 23 parlamentares, Camargo diferenciou amizade, coleguismo e convivência institucional.
O deputado disse que possui relações pessoais saudáveis na Assembleia e que consegue conviver com os demais parlamentares, embora nem sempre vote com a maioria. Para ele, a qualidade da relação pessoal não pode determinar seu posicionamento em matérias legislativas.
Camargo citou como exemplos sua posição isolada contra uma medida que, em sua avaliação, beneficiaria a Energisa por meio do perdão de uma dívida bilionária, e a ausência de outros deputados na assinatura de um pedido de CPI da Saúde.
“Eu fui o único deputado que se manifestou contra esse absurdo de beneficiar a Energisa com perdão de dívida bilionária. Também fui o único a assinar a CPI da Saúde. Prefiro caminhar sozinho a ter que ir mal acompanhado”, declarou.
O parlamentar também falou sobre a formação de sua equipe. Camargo afirmou que, ao assumir o mandato, abriu um processo para receber currículos de pessoas interessadas em trabalhar no gabinete. Mais de 500 documentos teriam sido enviados.
Segundo ele, a seleção durou aproximadamente 40 dias, incluiu entrevistas e exigiu o preenchimento de informações sobre a vida pregressa dos candidatos. Camargo afirmou que adotou critérios técnicos por considerar indispensável conhecer as pessoas que integrariam sua estrutura parlamentar.
O deputado atribuiu à equipe os resultados de produtividade alcançados no mandato. Ele disse ter sido apontado anteriormente como o melhor delegado do Brasil na categoria destaque, em levantamento divulgado em 2022, e afirmou ter aparecido posteriormente como o deputado estadual mais produtivo do país em uma análise realizada por um site de Brasília.
Camargo declarou que os resultados não decorreram exclusivamente de seu trabalho pessoal. Para ele, a capacidade de escolher servidores comprometidos e tecnicamente preparados foi determinante tanto na Polícia Civil quanto na Assembleia Legislativa.
Na parte final da entrevista, o deputado afirmou que pretende utilizar a experiência policial, parlamentar e familiar em uma eventual atuação no Executivo. Segundo Camargo, seu objetivo é contribuir para decisões que alcancem diferentes setores da administração estadual, sem abandonar as pautas relacionadas à segurança e às pessoas com deficiência.
Ao dirigir uma mensagem aos eleitores, o pré-candidato reconheceu que a política é frequentemente associada a corrupção, enriquecimento com dinheiro público e prática de rachadinha. Ele pediu, porém, que a população não desistisse de analisar as opções disponíveis.
Camargo recomendou que os eleitores pesquisem o histórico dos candidatos, verifiquem denúncias, condenações e possíveis envolvimentos com compra de votos antes de escolherem seus representantes. Para o deputado, a decisão eleitoral deve ser tomada de forma consciente, com base na trajetória de cada concorrente.
RD Entrevista é apresentado por Vinícius Canova nos estúdios do Rondônia Dinâmica, em parceria com o Informa Rondônia.
DEZ FRASES DE RODRIGO CAMARGO AO RD ENTREVISTA
01) “O máximo que a minha caneta de delegado conseguiu fazer foi emprestar duas baterias velhas. A caneta de deputado conseguiu 39 veículos zero quilômetro adaptados, um para cada Apae do Estado.”
Rodrigo Camargo comparou os instrumentos disponíveis na Polícia Civil e no mandato parlamentar ao explicar por que decidiu permanecer na política.
02) “Eu não tenho nenhum projeto de poder.”
A declaração foi feita quando o deputado negou que sua pré-candidatura a vice-governador tenha surgido de uma disputa pessoal por cargos dentro do grupo político.
03) “Onde mais eu posso ajudar as pessoas?”
Camargo apresentou a pergunta como o critério utilizado para aceitar a possibilidade de deixar uma candidatura legislativa e integrar uma chapa para o Poder Executivo.
04) “Muitas pessoas disseminaram que teria havido uma briga. Isso não aconteceu. Foi algo conversado, dialogado, olho no olho, sem problema algum.”
O pré-candidato respondeu dessa maneira ao ser questionado sobre as movimentações internas envolvendo seu nome e o projeto eleitoral apresentado por Flori Cordeiro.
05) “Não há nenhuma divisão de papéis aqui, porque nós não somos atores que querem aparentar algo que não são.”
Camargo rejeitou a hipótese de que ele e Marcos Rogério tenham combinado uma estratégia na qual um faria críticas mais duras e o outro ficaria encarregado das propostas.
06) “Fruto meu, não. Pelo contrário, fruto de uma equipe por trás extremamente comprometida.”
A frase foi pronunciada quando Camargo atribuiu aos integrantes de sua equipe os resultados alcançados durante a carreira policial e o mandato na Assembleia Legislativa.
07) “Eu sou um técnico, fico observando as movimentações.”
O deputado utilizou a definição ao explicar que acompanha orçamento, execução de recursos e atividades das secretarias para fornecer dados a Marcos Rogério.
08) “Você só ama de fato aquilo pelo qual você luta. O seu amor é proporcional à sua capacidade de lutar por aquilo.”
Camargo relacionou sua postura combativa às pautas que afirma defender e às críticas recebidas por seus posicionamentos firmes.
09) “Quem deseja governar um Estado tem que ter a capacidade de dialogar com os diversos espectros.”
A afirmação surgiu durante a discussão sobre a necessidade de uma eventual gestão de direita manter interlocução com representantes de outras correntes políticas.
10) “Dinheiro público não tem cara de partido ou de ideologia. O dinheiro é meu, é seu, é de todos nós.”
Camargo citou a postura de Léo Moraes diante do Governo Federal para defender que diferenças partidárias não impeçam a busca de recursos para a população.
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