Memórias do Madeira, povos indígenas e o impacto íntimo das águas represadas na Amazônia
O RIO SILENCIADO
Acordei às cinco e meia da manhã para andar sob as águas do Alto Rio Negro. O destino era a comunidade indígena de Duraka, onde oito etnias diferentes aprenderam a se organizar em prol de ideais coletivos e vivem apesar das dificuldades que são pertinentes a morar no interior da Amazônia profunda.
Navegamos em torno de quarenta minutos sobre as águas turbulentas do grande caminho, com muitas pedras à vista atacadas pela bravura do rio. Pequenos pássaros passavam rentes ao espelho d’água e ainda havia uma névoa ao fundo, dando um tom de mistério.
Quando me percebi naquele contexto, percebi dois sentimentos: estava com medo, da água e de algo dar errado, e logo senti que, entre sorrisos amarelos, alguns colegas também. Ao mesmo tempo, eu estava feliz, com um sorriso no rosto. Alternando entre esses dois sentimentos, não sabia ainda por quê.
Na ilha em que vivem os viventes na comunidade Duraka, fomos recebidos no que eu entendi enquanto um refeitório coletivo, onde cada família trouxe uma contribuição para o café da manhã e nós, professores, técnicos e pesquisadores, contribuímos com nossos alimentos também.
Antes do café da manhã, as crianças, acompanhadas por suas professoras e professores, cantaram músicas de boa recepção em algumas das línguas tradicionais faladas no território: Tukano e Nheengatu. Arrancaram lágrimas de alguns colegas.
Após a música, nos apresentamos mutuamente: lideranças, professores, gestores, técnicos da escola indígena e não indígena. Alguns, além de sua formação, do cargo que ocupam, do que pesquisam, de onde vieram e de qual povo pertencem, adicionaram que se emocionaram com a recepção.
Decidi que falaria apenas: sou Rafael, professor de Sociologia, vim de Rondônia. Eu decidi não falar que era pesquisador em Antropologia, etnografia, políticas públicas e povos indígenas. Muito aqui entre nós, essa profissão tem feito coisas boas com os povos indígenas, mas também pode se comportar como alguém que recebe seu diploma e abandona os povos assim como os encontraram. Por fim, estava decidido no que iria falar: breve e funcional.
Mas meus colegas de trabalho puderam me conhecer um pouco mais: nem em meus textos, nem em minhas amizades, nem em minhas aulas eu sou breve e funcional. Carrego em mim uma visceralidade do existir, tudo muito intenso, o que me faz carregar feridas no corpo e na alma que me fazem ir além e doem ao mesmo tempo.
Foi nesse momento que eu percebi, quando comecei a falar mais do que planejei, por qual motivo estava com um sorriso bobo algumas horas antes na lancha: o som da água batendo nas pedras me lembrava a Cachoeira do Teotônio e as pedras que havia na saída do bueiro que passava pelo rio do sítio em que cresci, a chácara de meu pai.
Sorri porque aquele cheiro, aquele som e aquela imagem me traziam algo lá dentro, uma felicidade de ser-existir, de ser filho de Rondônia, da Amazônia, de meu pai e de que tudo valeu a pena de alguma forma.
Foi quando meu sorriso virou uma lágrima e uma fala emocionada. Lembrei que as corredeiras de meus rios não existem mais. As pedras banhadas pelas águas rápidas do bueiro da chácara se tornaram uma água represada, verde de tanto lodo. O vizinho, para criar peixes que não criou, represou o pequeno igarapé, e a água não corria mais.
De uma forma muito maior, o Estado brasileiro represou nosso Rio Madeira com duas hidrelétricas de grande porte: Jirau e Santo Antônio. As corredeiras do Teotônio, acho que era ou é Santo Antônio, mas assim chamamos, viraram uma água represada, sem pesca, sem o som das pedras.
Em nome de dinheiro, produção, energia e desenvolvimento, meus rios foram mortos. Morreu meu avô, morreu meu pai, me enfiei dentro da universidade e passei anos lendo e publicando sobre “os impactos das tais hidrelétricas nos territórios indígenas”. Só quando vim para o Alto Rio Negro percebi o impacto das tais hidrelétricas em um território muito mais íntimo: o do meu ser.
Terminei minha fala na comunidade Duraka associando a necessidade de que os povos daquela região lutem como luta o Rio Negro, mas estava falando sobre minha pessoa também. A verdade é que tudo isso ocorreu e poucos entenderam de fato na época. Eu só entendi depois.
Mais uma vez foram os povos da floresta que entenderam desde o começo, e só depois a Academia, os pesquisadores e seus papéis, percebeu o que deu errado naquele projeto.
Conhecer, conviver, apoiar e/ou proteger as comunidades indígenas é importante por vários motivos, e um deles é o que temos neste texto: só olhando para eles podemos, e devemos, fazer nossa autocrítica enquanto sociedade, pessoas políticas, e repensar nossas histórias e o que podemos fazer para que as tragédias não continuem ocorrendo.
Viva nosso Rio Madeira e os povos tradicionais de Rondônia e da Amazônia.

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