Pesquisa do IBGE aponta que quase 2 milhões de pessoas trabalharam por plataformas digitais em 2025; informalidade chegou a 72,1% entre esses profissionais
Porto Velho, RO – A diferença na duração da jornada de trabalho ajuda a revelar uma das principais características do emprego por plataformas digitais no Brasil. Em 2025, quem atuava por aplicativos trabalhava, em média, 44,7 horas por semana, enquanto os demais ocupados do setor privado cumpriam 39,3 horas. Mesmo com 5,4 horas semanais a mais, os dois grupos apresentavam rendimento mensal praticamente igual.
Entre os chamados trabalhadores plataformizados, o rendimento médio mensal do trabalho principal ficou em R$ 3.147. Entre os não plataformizados, chegou a R$ 3.148. Quando o valor é calculado por hora trabalhada, porém, a diferença aparece: os profissionais de aplicativos recebiam, em média, R$ 16,20 por hora, contra R$ 18,40 dos demais trabalhadores. A remuneração por hora, portanto, era 12% menor.
Os números fazem parte de uma edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) dedicada ao trabalho intermediado por plataformas digitais, divulgada nesta sexta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento identificou 1,959 milhão de pessoas que realizaram atividades por meio de aplicativos em 2025, equivalente a 1,9% da população ocupada do país. Foram consideradas pessoas com 14 anos ou mais que utilizavam plataformas digitais para realizar serviços, incluindo transporte, entregas e atividades profissionais.
Os dados de rendimento apresentados pelo instituto correspondem ao valor efetivamente retirado pelo trabalhador depois do pagamento dos custos relacionados à atividade. No caso dos motoristas, por exemplo, despesas como combustível são descontadas antes do cálculo.
Na comparação com 2024, o rendimento real dos trabalhadores fora das plataformas cresceu 4,1%. Entre os plataformizados, houve estabilidade. O rendimento médio desse grupo havia sido de R$ 3.151 no ano anterior.
A presença das plataformas é particularmente elevada no setor de transporte, armazenagem e correios. De acordo com o IBGE, 75% dos trabalhadores dessa atividade econômica utilizavam aplicativos. Isso significa que três em cada quatro ocupados do segmento estavam vinculados, de alguma forma, às plataformas digitais.
O transporte de passageiros concentra a maior parcela dos trabalhadores identificados na pesquisa. Cerca de 1,2 milhão de pessoas utilizavam aplicativos desse tipo, o equivalente a 58,9% de todos os plataformizados.
Desse contingente, aproximadamente 1,1 milhão trabalhava com plataformas como Uber e 99. Outros 232 mil utilizavam exclusivamente aplicativos relacionados ao serviço de táxi.
As entregas também representam uma parcela expressiva. Em 2025, 376 mil pessoas realizavam entregas de alimentos, produtos e outros itens utilizando plataformas como iFood, Rappi e Zé Delivery. O grupo correspondia a 19,2% dos trabalhadores por aplicativos.
Outra categoria analisada pelo IBGE reúne serviços gerais ou profissionais contratados por plataformas digitais. Nesse segmento estavam 313 mil trabalhadores, ou 16% do total. O grupo contempla atividades como design, tradução e até serviços médicos realizados por telemedicina quando a plataforma é utilizada para captar pacientes e realizar consultas.
O levantamento também revela diferenças importantes em relação à formalização do trabalho e à proteção previdenciária. Entre os trabalhadores de aplicativos, 72,1% estavam na informalidade. No restante do mercado pesquisado, essa proporção era de 42,7%.
A cobertura previdenciária seguia caminho inverso. Apenas 34% dos plataformizados contribuíam para a Previdência, enquanto entre os demais trabalhadores o percentual alcançava 63%.
Pelos critérios utilizados pelo IBGE, integram a informalidade, por exemplo, empregados sem carteira de trabalho assinada e trabalhadores por conta própria sem CNPJ. A ausência de formalização pode deixar esses profissionais sem garantias associadas ao emprego formal, como férias e 13º salário. A contribuição previdenciária, por sua vez, permite acesso a benefícios como aposentadoria, pensão por morte e benefício por incapacidade.
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a predominância do trabalho por conta própria. Aproximadamente 1,6 milhão de pessoas ocupadas por aplicativos estavam nessa condição, representando 86,8% dos plataformizados. Considerando toda a população ocupada no setor privado, os trabalhadores por conta própria correspondiam a 28,9%.
Apesar dessa classificação, o IBGE encontrou sinais de dependência dos profissionais em relação às empresas responsáveis pelas plataformas.
Entre os motoristas que transportavam passageiros fora do serviço de táxi, 80,2% declararam que o valor recebido por cada serviço era totalmente determinado pela plataforma. Entre os entregadores, 78,3% deram a mesma resposta.
Também entre os entregadores, 65,9% afirmaram que o prazo para concluir uma tarefa dependia dos aplicativos. Outros 71,3% disseram que a maneira como o pagamento seria recebido era estabelecida pela própria plataforma.
Segundo o analista da pesquisa Gustavo Geaquinto Fontes, a situação desses profissionais apresenta diferenças em relação ao modelo tradicional de trabalho por conta própria. Ele explicou que, embora não exista vínculo formal com a plataforma, permanece uma dependência do trabalhador em diversos aspectos determinados pela empresa responsável pelo aplicativo.
O perfil dos profissionais também foi detalhado pelo levantamento. Considerando as pessoas que tinham os aplicativos como principal ocupação, 84,4% eram homens. A faixa dos 25 aos 39 anos reunia 47% desse grupo.
Ao investigar as razões que levaram essas pessoas a ingressar no trabalho por plataformas, o IBGE constatou que, entre motoristas de aplicativos — excluídos os taxistas — e entregadores, a principal motivação declarada foi a dificuldade para encontrar outro emprego.
Flexibilidade e possibilidade de obter rendimento superior ao oferecido por outras oportunidades de trabalho disponíveis também apareceram entre as justificativas apresentadas pelos entrevistados.
A Pnad sobre trabalho por plataformas digitais ainda é classificada pelo IBGE como experimental, o que significa que sua metodologia permanece em fase de avaliação e aperfeiçoamento. Levantamentos semelhantes foram realizados em 2022 e 2024.
A pesquisa de 2025, entretanto, ampliou o universo analisado. Pela primeira vez, foram incluídas pessoas que utilizavam os aplicativos apenas como fonte complementar de renda. Nas edições anteriores, eram considerados somente trabalhadores cuja atividade nas plataformas representava a ocupação principal.
Por causa dessa mudança metodológica, o contingente total de aproximadamente 2 milhões registrado em 2025 não pode ser diretamente comparado aos números divulgados anteriormente.
Quando são considerados apenas os trabalhadores que tinham os aplicativos como ocupação principal, entretanto, a comparação é possível. Esse grupo passou de 1,3 milhão em 2022 para 1,7 milhão em 2024 e alcançou 1,8 milhão em 2025.
O crescimento foi de 9,1% entre 2024 e 2025 e de 36,8% na comparação entre 2022 e 2025. Entre as atividades pesquisadas, os entregadores tiveram a maior expansão recente. O número de trabalhadores desse segmento aumentou 18,6% entre 2024 e 2025, sendo a única ocupação analisada a apresentar crescimento de dois dígitos no período.
A divulgação dos dados ocorre em meio ao debate sobre as relações trabalhistas entre profissionais e empresas de aplicativos. Cerca de uma semana antes da publicação da pesquisa, o Supremo Tribunal Federal (STF) adiou a retomada do julgamento relacionado à chamada “uberização”.
Entidades que representam categorias como motoristas defendem o reconhecimento de vínculo empregatício com as plataformas, sob o argumento de ampliar a proteção trabalhista. Empresas do setor contestam esse entendimento e rejeitam a caracterização da relação como vínculo de emprego.
Em parecer apresentado sobre o tema, a Procuradoria-Geral da República (PGR) também se posicionou contra o reconhecimento de vínculo trabalhista entre motoristas e plataformas digitais.
Com informações de: Agência Brasil
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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