Movimentos no campo progressista, concessão de água e esgoto e investigações redesenham os bastidores políticos de Rondônia
XEQUE-MATE
A pré-candidatura de Confúcio Moura à reeleição ao Senado caiu em Rondônia como uma peça de dominó lançada no xadrez da centro-esquerda. O movimento, que à primeira vista parece apenas uma tentativa de manter uma cadeira no Congresso, tem potencial para provocar um rearranjo mais profundo: colocar em xeque tanto a pré-candidatura de Pedro Adib ao governo pelo MDB quanto a de Expedito Netto pelo campo petista.
PRAGMATISMO
Nos bastidores, a conversa é menos ideológica e mais matemática. A direção nacional do PT, segundo interlocutores, tem priorizado candidaturas senatoriais consideradas viáveis, deixando em segundo plano projetos majoritários que servem mais para marcar posição do que para disputar poder real. Nesse cálculo, Confúcio Moura ganha peso por ser o único senador da bancada federal rondoniense alinhado ao governo Lula.
LANCE
A consequência dessa equação é uma possível operação de “duas baixas em um lance”. Ao enfraquecer a candidatura de Pedro Adib no MDB e, ao mesmo tempo, esvaziar a de Expedito Netto no PT, abrir-se-ia espaço para uma nova composição no campo progressista. Nesse cenário, o nome de Luciana Oliveira surgiria como alternativa para a disputa ao governo, caso haja consenso entre PT e MDB.
OPÇÃO
Mesmo em viagem à China, Luciana já é citada por setores do PT local como uma opção capaz de reorganizar a estratégia eleitoral. A lógica seria simples: fortalecer uma candidatura ao Senado com maior densidade eleitoral e ajustar a chapa majoritária para evitar dispersão de forças. Além disso, seria apresentada ao eleitor a opção de uma candidatura feminina.
ISOLADO
Não é segredo que Confúcio Moura e Acir Gurgacz, ambos aliados do campo governista, nunca demonstraram entusiasmo com a pré-candidatura de Expedito Netto. A avaliação de bastidor é que Netto, desde o anúncio de sua postulação, perdeu tração política e passou a operar em isolamento.
ORDEM
Caso a mudança de rota seja oficialmente apresentada, há quem considere significativas as chances de aprovação interna no PT local. Afinal, partidos costumam trocar convicções por viabilidade quando a urna começa a falar mais alto que o discurso. E uma decisão da Executiva Nacional do PT é uma ordem.
CONFIGURAÇÃO
No fim das contas, o tabuleiro ainda está longe de uma definição. Mas a entrada de Confúcio Moura no jogo altera a geometria da disputa e transforma candidaturas antes anunciadas como certas em peças negociáveis. Em política, o problema não é apenas ter projeto; é sobreviver quando os aliados decidem redesenhar o mapa. Resta conferir se o campo progressista de Rondônia conseguirá costurar essa nova configuração sem deixar mais feridos pelo caminho.
PRIVATIZAÇÃO
O Governo de Rondônia abriu a etapa decisiva da concessão regionalizada dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. O edital da Concorrência Pública Internacional nº 90496/2025/SUPEL/RO prevê contrato de R$ 8,477 bilhões, prazo de 35 anos e abrangência sobre os 40 municípios da Microrregião de Água e Esgoto de Rondônia.
SURPRESA
A entrega das propostas está marcada para 22 de setembro de 2026, enquanto o leilão ocorrerá em 29 de setembro, na sede da B3, em São Paulo. O julgamento levará em consideração a combinação entre a menor tarifa oferecida aos consumidores e o maior valor de outorga fixa, cuja oferta mínima foi estabelecida em R$ 567,6 milhões.
A publicação do edital surpreendeu pela proximidade da realização do leilão. Em pouco mais de dois meses, o Estado pretende concluir uma das maiores concessões de infraestrutura da história de Rondônia, responsável por redefinir o modelo de prestação dos serviços de água e esgoto em praticamente todo o território estadual.
DEBATE
Embora o edital registre que o Governo promoveu consulta pública entre 19 de março e 17 de abril de 2025 e realizou audiência pública em 4 de abril de 2025, conforme as exigências legais, a divulgação da concorrência reacendeu questionamentos sobre o alcance efetivo do debate público antes da abertura da licitação.
Até a publicação do edital, o tema teve repercussão limitada fora dos meios técnicos e administrativos. Não houve ampla mobilização pública envolvendo entidades representativas da sociedade civil, sindicatos, associações de trabalhadores da Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia, setor produtivo, câmaras municipais, Assembleia Legislativa ou bancada federal, apesar do impacto que a concessão poderá produzir sobre o saneamento básico e sobre a principal empresa pública do setor no Estado.
SUSPEITAS
Entre os grupos apontados pelo mercado como potenciais interessados está a Aegea Saneamento, uma das maiores operadoras privadas de saneamento do país e que já mantém contratos em municípios de Rondônia. A empresa também ganhou destaque nacional após acordos de colaboração premiada e de leniência firmados no âmbito de investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal e homologadas pelo Superior Tribunal de Justiça. Ex-executivos relataram o pagamento de vantagens indevidas para facilitar a obtenção e a manutenção de concessões em diferentes estados entre 2010 e 2018.
DELAÇÃO
Reportagens publicadas pelo UOL e repercutidas por outros veículos informaram que Rondônia aparece entre os estados mencionados nos anexos das colaborações. A Aegea declarou que os fatos dizem respeito a período anterior a 2018, afirmou ter colaborado com as investigações e informou que implantou novos mecanismos de governança e compliance após a celebração do acordo de leniência.
RETA
O edital estabelece que a futura concessionária assumirá a prestação regionalizada dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, devendo cumprir metas de universalização, desempenho e qualidade previstas no contrato e em seus anexos. Com a publicação da concorrência internacional, Rondônia entra na reta final de um processo que poderá transformar o setor de saneamento pelos próximos 35 anos.
INVESTIGAÇÃO
Enquanto a preparação para o leilão avança, permanecem sem definição oficial questões consideradas centrais para a população, entre elas o futuro institucional da Caerd, a situação de seus trabalhadores e os efeitos da transição para o novo modelo de concessão. Tem-se, então, um processo longo que renderá debates enormes, muita demagogia e explicações a serem dadas em ano eleitoral.
USINAS
As usinas vendem a narrativa do progresso, mas deixam aos ribeirinhos a conta salgada da devastação. O rio, antes estrada de vida, virou corredor de incerteza para comunidades que dependem da pesca. A redução dos peixes não é estatística fria: é alimento escasso, renda perdida e cultura ameaçada. Nos barrancos, a erosão avança como uma assinatura cruel da intervenção humana mal compensada. Casas ficam sob risco, margens desabam e a paisagem que sustentava famílias inteiras se desfaz.
REPARAÇÃO
Enquanto isso, os empreendimentos seguem embalados por discursos técnicos e relatórios cuidadosamente polidos. Mas a realidade dos ribeirinhos não cabe em folder corporativo nem em promessa de compensação. Por isso, merece aplauso a atuação do MPF e da DPF ao ajuizarem ações por danos ambientais. Ao buscarem reparação milionária com base em informações públicas, reforçam que desenvolvimento sem responsabilidade tem preço. Fica o recado: energia não pode ser produzida à custa do rio, da pesca e da dignidade de quem vive às suas margens.
OPERAÇÃO
Como há suspeitas de vazamento, a operação policial que atingiu o coração do Poder Legislativo estadual não surpreendeu quem é alvo das investigações. Foi uma bola supostamente cantada horas antes da deflagração. Mas é um tema a ser abordado mais adiante, uma vez que existem oito procedimentos investigatórios em andamento. Os demais fatos, como assistimos ao vivo nas plataformas, estão sendo amplamente divulgados. Muito mais vem por aí.
Com informações de: Robson Oliveira

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