Pedro Abib afirma ter recebido do partido garantia de autonomia total e diz que eventuais escolhas políticas do senador em âmbito nacional dizem respeito apenas a ele, não ao projeto que o pré-candidato pretende construir em Rondônia
Porto Velho, RO – Pedro Abib, empresário do setor de educação, mestre e doutor em Direito, médico veterinário e pré-candidato ao governo do estado de Rondônia pelo MDB, concedeu entrevista ao podcast RD Entrevista, apresentado por Vinícius Canova nos estúdios do Rondônia Dinâmica, em parceria com o Informa Rondônia. Ao longo de quase uma hora de conversa, o entrevistado defendeu a necessidade de transformar a matriz econômica de Rondônia, rejeitou rótulos ideológicos, afirmou ter autonomia plena dentro do MDB e esclareceu uma polêmica envolvendo uma notificação extrajudicial enviada a um colaborador do próprio veículo que o recebia.
O ponto de partida escolhido por Pedro Abib para explicar seu projeto de governo foi econômico. Na sua avaliação, Rondônia ainda opera dentro de um padrão que chamou de colonial, no qual o estado produz matéria-prima barata, exporta sem agregar valor e importa de volta produtos industrializados caros. A soja foi o exemplo mais desenvolvido. “A gente produz soja. Essa soja valia duas, três vezes mais do que hoje. Como é que fica essa situação? A gente ficar à deriva dessa maneira, dependendo do valor das commodities, isso é um risco. Então a gente potencializa a produção, mas vamos ver de que forma Rondônia consegue transformar a soja em proteína. E aí a gente vai gerar emprego e vender proteína e não a soja in natura”, disse. O mesmo raciocínio foi estendido ao leite, à madeira e a outras cadeias produtivas do estado, com ênfase na industrialização local como caminho para transformar a base econômica regional e reduzir a dependência das oscilações do mercado internacional de commodities.
Para que essa transformação aconteça, o pré-candidato defendeu que o governo do estado precisa adotar o que chamou de uma tríade permanente: ciência, tecnologia e inovação. Na sua visão, a gestão pública rondoniense precisa abandonar o que classificou como política de achismo e migrar para decisões baseadas em dados, diagnósticos e conhecimento técnico produzido em parceria com universidades e institutos de pesquisa. “A gente precisa sair da política de achismo e ir para a política de dados, de conhecimento, com diagnóstico, para tacar gargalo e não para fazer coisa do achismo do gestor”, afirmou.
Esse projeto, segundo o entrevistado, não se encaixa nas categorias tradicionais do debate ideológico brasileiro. Ao longo de toda a conversa, Pedro Abib recusou rótulos de direita e esquerda e defendeu uma avaliação pragmática de cada política pública em seu contexto específico, sem fidelidade a receituários fixos. Quando o apresentador o pressionou sobre a viabilidade de sustentar moderação num cenário de polarização extrema, citando como exemplo o comportamento de eleitores que chegam a ingerir produtos perigosos para demonstrar fidelidade política, o pré-candidato respondeu com uma avaliação sobre o tamanho real dos extremos no eleitorado. “Os extremos não representam. Os extremos estão deslocados da realidade. E não é pros extremos que a gente quer falar. A gente quer falar pro rondoniense que é sensato, e é a maior parte. Os extremos são muito poucos. Eu não tenho dúvida”, afirmou.
A recusa a rótulos foi detalhada numa das passagens mais longas da entrevista, quando Pedro Abib explicou o que entende por uma candidatura sem lado ideológico fixo. “Não tenho neutralidade, eu apenas não tenho rótulos. Porque depois o rótulo vai dizer: não, porque a direita é a favor da privatização, a esquerda é contra a privatização. Mas eu não sou nem a favor e nem contra. Eu tenho que analisar no caso concreto. Eu preciso entender se, naquele caso concreto, para aquilo que a população precisa, se o privado consegue chegar e fazer aquilo, ele que faça. Mas e se o privado não tiver interesse? Porque na análise do privado aquilo não vale a pena. Mas a população precisa daquele serviço. Quem vai fazer? É o Estado. Não tem um certo ou um errado, ou tudo privatizado ou tudo estatizado. Isso depende do caso concreto”, explicou.
Foi nesse enquadramento que a pergunta sobre Confúcio Moura ganhou peso. O apresentador observou que o senador é identificado como lulista e perguntou diretamente se Pedro Abib estaria obrigado a seguir esse projeto em âmbito nacional. O pré-candidato respondeu afirmando ter recebido dos dirigentes do MDB uma garantia explícita de independência. “Foi me dito o seguinte: Pedro, a pré-candidatura e futura candidatura, se vier a acontecer, é do Pedro Abib. Essa pré-candidatura não é do Confúcio Moura. Se o Confúcio Moura, na sua subjetividade, for apoiar lado A ou B em nível nacional, pauta A ou B em nível nacional, isso é algo que diz respeito à candidatura do Confúcio Moura, do senador, e diz respeito à pessoa dele. Não diz respeito à pré-candidatura e ao projeto do Pedro Abib. Me deram autonomia completa”, declarou.
O pré-candidato informou ainda que, no mesmo dia da gravação da entrevista, havia participado de uma reunião com o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, e que em cerca de duas semanas deveria viajar a Brasília para um novo encontro partidário. Sobre a forma discreta como o lançamento da pré-candidatura ocorreu, sem pompa partidária e sem manifestação pública de apoio do senador nas redes sociais, Pedro Abib negou qualquer sensação de desprestígio e apresentou o modelo de construção de sua candidatura como deliberadamente diferente do convencional. “Ela não inicia vindo de cima para baixo. Ela iniciou de pessoas de baixo que identificaram e fomentaram isso para cima. O que não é tradicional na política, vocês sabem disso”, disse.
A decisão de entrar na política foi descrita como o resultado de um amadurecimento longo, que envolveu conversas com o arcebispo Dom Roque e com o padre Geraldo, além de reflexões no âmbito familiar. Pedro Abib recorreu às palavras do Papa Francisco, referido durante a entrevista como o “Papa falecido, anterior ao Papa Leão”, para explicar o que o fez superar a hesitação. “O Papa dizia: não adianta a gente criticar, criticar, criticar. O leigo da Igreja Católica tem que sair da zona de conforto e tem que ir para dentro da política. Porque a gente falar mal da política e não ir para dentro para fazer a diferença, isso é covardia. A gente tem que dar um passo de coragem”, relatou. Um elemento prático também pesou na escolha. O entrevistado descreveu dificuldades enfrentadas pela instituição que dirige ao tentar avançar projetos no Ministério da Educação sem respaldo político, com prazos que se multiplicavam sem justificativa técnica aparente. “Tu começas a perceber que, quando tu não tem uma articulação política, o que era para demorar seis meses, demora um ano e meio. O que era para ser feito em três meses, demora oito meses. Burocracia. E aquela burocracia que alguém senta em cima, que alguém tira de cima e bota para baixo, porque tu não tem articulação pública”, descreveu.
Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Pedro Abib é filho de professores universitários e passou cinco anos na Espanha durante a infância, entre 1997 e 2002, enquanto os pais realizavam doutorado na Universidade Autônoma de Madrid com bolsa de estudos. A família veio para Rondônia a convite de Dom Jaime, que era bispo de Pelotas e chanceler da Universidade Católica de Pelotas à época e tinha relação próxima com os pais do entrevistado, para ajudar a fundar o ensino superior católico na região amazônica. O entrevistado afirmou ter escolhido Rondônia como sua terra e atribuiu à convivência com os pais a vocação para o magistério que carrega até hoje. Sua esposa, a pesquisadora Bruna Lourenço, e as filhas Antonella e Paola foram apresentadas como o centro de sua vida pessoal.
A entrevista foi gravada numa semana descrita pelo apresentador como especialmente violenta para a imprensa rondoniense, marcada por ameaças de morte virtuais à pré-candidata ao Senado pelo PT, Luciana Oliveira, por uma suposta agressão dentro da Câmara de Vereadores e por um ataque físico a um jornalista na rua. Foi nesse contexto que Vinicius Canova trouxe à tona uma polêmica diretamente ligada ao próprio veículo. Em outubro de 2025, o colaborador exclusivo do Rondônia Dinâmica, titular da coluna Falando Sério, Herbert Lins, havia publicado que Pedro Abib seria candidato ao governo do estado. A divulgação foi respondida com uma nota de esclarecimento e com uma notificação extrajudicial, instrumento que o apresentador descreveu como uma sinalização de ameaça de processo e que, em determinadas circunstâncias, pode ser caracterizado como assédio judicial. A ironia não passou despercebida: o homem que havia motivado a notificação estava ali, na condição exata que o jornalista havia antecipado meses antes.
Pedro Abib tratou de separar o que considerou uma confusão de atribuição. Segundo ele, a notificação não partiu da instituição de ensino que dirige, mas de uma empresa privada parceira. “Quem fez a notificação extrajudicial não é a Católica. É a IRB Prime Care, que é uma empresa privada, que não tem relação nenhuma formal, salvo uma parceria com a Católica. Foi o doutor Ivan que é a pessoa que responde por essa empresa. Portanto, não foi essa notificação extrajudicial feita pela Católica, e jamais faria uma notificação extrajudicial”, afirmou. Ele sustentou ainda que, em outubro de 2025, a publicação era factualmente prematura, pois não havia nenhum compromisso formal com o MDB nem sequer uma intenção de filiação comunicada ao partido. “Não havia pré-candidatura do Pedro. O Pedro jamais, naquele momento, em outubro de 2025, havia manifestado pro MDB que sequer se filiaria”, declarou.
O entrevistado encerrou o tema com um convite público e direto ao jornalista envolvido. “Saiba, e o Herbert Lins, que o Pedro não tem nenhum problema de conversar com a imprensa, de receber notícias contra, com crítica, porque isso faz parte da democracia. Eu peço que me coloquem à disposição dele. Assim o Pedro está, para dialogar, para conversar, para ele conhecer melhor o Pedro e saber o que o Pedro quer por Rondônia”, disse. O recado foi resumido em seguida de forma ainda mais direta: “Conta com o Pedro.”
