Produtores relataram dificuldades com custos, preços pagos pelo leite, estradas e assistência técnica durante audiência realizada pela Assembleia Legislativa em Nova Mamoré
Porto Velho, RO – A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Leite encerrou, em Nova Mamoré, a primeira etapa de oitivas com produtores rurais de diferentes regiões de Rondônia. A audiência foi realizada na segunda-feira (18), no plenário João Francisco Clímaco, da Câmara Municipal, reunindo parlamentares, representantes locais e trabalhadores do setor leiteiro para discutir a crise enfrentada pela cadeia produtiva.
Durante os depoimentos, produtores relataram dificuldades relacionadas ao custo da atividade, à remuneração considerada insuficiente e à falta de apoio técnico. Proprietário de uma área de 50 hectares, José Vargas afirmou que a atividade perdeu viabilidade econômica diante das despesas com alimentação do rebanho. Segundo ele, além do preço praticado atualmente, a precariedade das estradas e a ausência de transporte adequado afetam diretamente a produção.
Na avaliação de Luiz Claudio Santana, a situação enfrentada pelos produtores se agravou nos últimos anos. Ele declarou que muitos trabalhadores interromperam as atividades em razão da crise e defendeu mudanças no valor pago pelo leite e na assistência técnica oferecida ao setor. O produtor também relatou dificuldades relacionadas aos equipamentos utilizados pelos laticínios, explicando que os tanques pertencem às empresas, o que limita a mudança para outros compradores.
Herdeiro de uma família tradicional na produção leiteira, Jailton Gomes afirmou que os custos com alimentação animal representam hoje a principal despesa da atividade. Segundo ele, a renda obtida com o leite não cobre os gastos da produção. Apesar de dizer que pretende permanecer no ramo, lamentou o desânimo das novas gerações diante das dificuldades enfrentadas no campo.
O pequeno produtor Luciano, responsável por uma criação de 50 animais com produção de até 150 litros por dia, relacionou a redução da oferta de leite ao baixo valor pago pelo produto e à falta de assistência aos produtores. Ele também informou desconhecer o funcionamento do Conselho Paritário de Produtores e Indústrias de Leite do Estado de Rondônia (Conseleite).
Já Edelson de Souza afirmou que a atividade é conduzida sem previsibilidade adequada em relação ao valor e à data de pagamento do leite entregue aos laticínios. Segundo ele, muitos produtores reduziram a produção ou abandonaram o setor. Em um dos trechos mantidos em discurso direto, declarou: “o político deveria ter um olhar melhor para o produtor, porque hoje o custo é muito caro para o produtor”.
A audiência foi conduzida pela presidente da CPI, a deputada estadual Cláudia de Jesus, com participação da deputada Dra. Taíssa e do vereador André Luiz Baier. De forma remota, também participaram os deputados Eyder Brasil e Ismael Crispin.
Durante os debates, André Luiz Baier afirmou que o setor produtivo precisa ser tratado como prioridade e criticou a condução das políticas voltadas à agricultura estadual. Já a deputada Dra. Taíssa informou que pretende apresentar requerimento para elaboração de um projeto de lei voltado à valorização da cadeia produtiva do leite. A parlamentar também questionou a efetividade do Conseleite, destacando que os preços divulgados pelo conselho não possuem caráter obrigatório.
Segundo Cláudia de Jesus, as informações colhidas pela comissão serão incorporadas ao processo investigativo. A parlamentar declarou que a CPI busca construir encaminhamentos para conter prejuízos enfrentados pelos produtores e consumidores. Em fala mantida parcialmente em discurso direto, afirmou: “Nós não estamos aqui para tirar ninguém das atividades, mas o que nós queremos é que o produtor do leite seja respeitado no estado de Rondônia”.
Instalada em março pela Assembleia Legislativa de Rondônia, a CPI investiga possíveis irregularidades na cadeia produtiva do leite. Entre os pontos analisados estão os critérios adotados pelo Conseleite para cálculo dos custos de produção, a confiabilidade dos dados enviados pelas indústrias, a possível concentração de preços, além da política de incentivos fiscais aplicada ao setor lácteo.
Antes da audiência em Nova Mamoré, os trabalhos da comissão passaram pelos municípios de Machadinho d’Oeste, Alvorada do Oeste, Jaru e Ji-Paraná. A próxima etapa prevê oitivas com representantes de órgãos públicos e entidades ligadas ao setor. Em seguida, deverão ser ouvidos empresários do ramo de laticínios. A previsão é de que os trabalhos da CPI sejam concluídos em julho de 2026.
Com informações de: Assembleia Legislativa
