Ex-secretário relata “guerra de egos” entre forças de segurança, afirma ter sido ameaçado pelo Comando Vermelho, critica audiência de custódia e diz que criminoso que rejeita mudança terá “o caixão e a prisão” como caminhos
Porto Velho, RO – O ex-secretário de Segurança Pública (Sesdec/RO), Coronel Felipe Vital, candidato a deputado estadual aprovado em convenção pelo PSD, transformou uma entrevista inicialmente dedicada à trajetória pessoal e à passagem pelo comando da pasta estadual em uma exposição de posições políticas, críticas ao funcionamento do Estado e defesa de medidas mais rigorosas contra organizações criminosas.
Durante participação no BotoCast, do Boto na Rede, o ex-secretário também relatou ameaças contra sua vida, conflitos internos entre instituições, operações em residenciais populares e as razões que o levaram a colocar o nome à disposição para disputar uma vaga de deputado estadual.
Uma das declarações de maior repercussão potencial ocorreu quando Vital relacionou a omissão de agentes públicos ao fortalecimento da criminalidade. Sem citar nominalmente um político brasileiro, ele incluiu presidentes, deputados e vereadores entre as autoridades que, em sua avaliação, têm a responsabilidade de aprovar leis, controlar fronteiras e restringir a atuação das facções.
“A partir do momento em que o representante do povo, presidente, deputado, vereador, quem quer que seja, não faz o seu trabalho para dificultar a vida do crime, ele está do lado do criminoso. Se eu não coloco Exército, Marinha, Aeronáutica e Polícia Federal para controlar a fronteira, para não entrar essa droga, e se eu não coloco leis mais severas para dificultar a vida do criminoso, a partir do momento em que eu não faço isso, eu estou do lado do crime”, declarou.
Vital defendeu que as facções brasileiras sejam enquadradas como grupos terroristas e afirmou que essa decisão poderia partir da Presidência da República. Ao formular o argumento, mencionou uma iniciativa atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sustentou que o governo brasileiro não precisaria esperar uma classificação promovida por outro país.
“Eu não preciso que o presidente Donald Trump, lá dos Estados Unidos, fale assim: ‘Agora eu vou classificar as facções como grupos terroristas’. O nosso presidente poderia fazer isso”, afirmou. Na sequência, acrescentou que leis mais rigorosas deveriam elevar o custo da atividade criminosa e fazer com que integrantes de organizações avaliassem as consequências antes de transportar drogas ou cometer outros delitos.
Vital diz que político omisso “está do lado do criminoso”
Ex-secretário relata “guerra de egos” entre forças de segurança, afirma ter sido ameaçado pelo Comando Vermelho, critica audiência de custódia e defende repressão combinada com prevenção social.
Fonte: entrevista de Felipe Vital ao BotoCast, do Boto na Rede
Apreensão citada por Vital
14 toneladas
O ex-secretário afirmou que sua gestão registrou a maior apreensão de drogas da história de Rondônia.
Patrulha Rural
33 mil+
Número de visitas a propriedades rurais atribuído por Vital ao programa de patrulhamento com aplicativo de cadastro.
Feminicídios analisados
25 casos
Segundo Vital, nenhuma das vítimas analisadas possuía medida protetiva no momento do crime.
Foragidos no Baixo Madeira
12
Vital afirmou que todos os foragidos identificados foram capturados com apoio de informações encaminhadas pela população.
Diagnóstico político
Três acusações que estruturam o discurso de Vital
O coronel atribuiu o avanço do crime à omissão política, à falta de integração entre instituições e à ausência de leis capazes de elevar o custo da atividade criminosa.
Omissão
Representante que não dificulta a vida do crime estaria “do lado do criminoso”
Vital incluiu presidente, deputados, vereadores e demais autoridades entre os responsáveis por aprovar leis mais severas e reforçar o controle das fronteiras.
Facções
Classificação como grupos terroristas deveria partir do próprio Brasil
O ex-secretário afirmou que a Presidência da República poderia enquadrar as facções sem aguardar uma iniciativa estrangeira.
Integração
“Guerra de egos” teria separado Polícia Civil, Polícia Militar e Politec
Vital afirmou que o primeiro obstáculo encontrado na secretaria foi colocar as instituições sob uma estratégia comum contra as organizações criminosas.
Estado contra o crime
Repressão, inteligência e prevenção na mesma estratégia
Vital defendeu uma política que imponha presença territorial do Estado, fortaleça as forças policiais e crie alternativas sociais para crianças, adolescentes e famílias vulneráveis.
Declaração de Felipe Vital
“Não é só repressão, não é só combater e matar. Você tem que fazer um trabalho preventivo, dar condição para a família e para aquela criança ter oportunidade.”
Presença territorial
O Estado deve ocupar áreas dominadas por facções e demonstrar que o comando pertence às instituições públicas.
Inteligência e integração
Polícias, sistema de Justiça e órgãos administrativos precisam compartilhar estratégia, informação e capacidade operacional.
Leis mais severas
Vital criticou audiência de custódia e progressão de pena e defendeu normas que aumentem o risco assumido pelo criminoso.
Proteção social
Escola integral, esporte, cursos, creches 24 horas e assistência às famílias foram apresentados como barreiras ao recrutamento pelo crime.
Operações e ameaças
Da retomada de residenciais ao risco pessoal
Vital relacionou as ameaças recebidas às operações contra facções e à apreensão de drogas, além de afirmar que passou a utilizar colete e segurança permanente.
Morar Melhor
Recuperação de imóveis tomados por facções
A iniciativa começou no residencial Morar Melhor, dentro do programa Aliança pela Vida — Moradia Segura, e deveria avançar para outros conjuntos habitacionais.
Orgulho do Madeira
Morte de policial antecipou entrada das forças públicas
Segundo Vital, a operação provocou ataques e represálias de criminosos que tratavam o residencial como um “quartel-general”.
Ameaça atribuída
Ligação e mensagem teriam partido do Comando Vermelho
Vital afirmou que recebeu ameaça de uma pessoa identificada como “Neguinho PC”, associada por ele ao Complexo do Alemão e ao Comando Vermelho.
Proteção pessoal
Colete, segurança 24 horas e cuidados com a família
O coronel disse que a proteção passou a alcançar também familiares após as ameaças e o acesso indevido a dados ligados à sua residência.
Resposta integrada
Órgãos estaduais, federais e de Justiça reunidos
Polícias, Politec, Ministério Público, Defensoria, Judiciário, Tribunal de Contas e Assembleia foram citados na mobilização contra as facções.
Baixo Madeira
Ações contra os chamados “Piratas do Madeira”
Vital relatou combate a roubos, tráfico e ataques a embarcações, além da aquisição de uma embarcação blindada para reforçar o patrulhamento.
Violência dentro de casa
Os indicadores que Vital disse não ter conseguido reduzir
O ex-secretário afirmou que feminicídio, violência doméstica e abuso sexual infantil permaneceram como exceções entre os indicadores que, segundo ele, caíram durante sua administração.
25 feminicídios
Análise individual dos casos
Vital afirmou ter examinado cada ocorrência registrada no ano anterior para identificar padrões e falhas de proteção.
12 agressores
Passagens por violência doméstica
Segundo ele, 12 autores já possuíam registros relacionados à violência doméstica.
Nenhuma vítima
Ausência de medida protetiva
Vital declarou que nenhuma das 25 vítimas analisadas tinha medida protetiva, o que teria impedido o conhecimento prévio do risco pelo Estado.
Prevenção escolar
Educação para identificar abuso
Ele defendeu conteúdos escolares sobre violência doméstica, toques inadequados, agressões e formas de buscar ajuda.
Trajetória e projeto eleitoral
Da infância em área de invasão à candidatura
Vital associou a experiência militar, o assassinato dos pais e a passagem pela Secretaria de Segurança à decisão de entrar na política e disputar uma vaga de deputado estadual.
Projeto político
“Quero ser lembrado como o melhor deputado que Rondônia já teve”
Vital afirmou que nunca havia planejado disputar cargo eletivo, mas passou a considerar a candidatura ao concluir que decisões políticas interferem diretamente na segurança, na saúde, na educação e nos demais serviços públicos.
Para ele, a política representa “esperança”, Rondônia significa “oportunidade” e o objetivo pessoal é “fazer a diferença na vida das pessoas”.
2002
Ingresso no Exército aos 18 anos
Natural de Manaus, Vital entrou no Exército e foi transferido para Porto Velho no ano seguinte.
2009
Entrada no Corpo de Bombeiros
Após sete anos no Exército e passagem pelo curso de soldado, ingressou no oficialato dos bombeiros.
2018
Pais assassinados no mesmo dia e horário
Vital afirmou que a perda produziu uma “sede de justiça” e marcou sua forma de conduzir a Segurança Pública.
2022
Convite para comandar a Segurança
O coronel disse ter recebido carta branca do governador Marcos Rocha para assumir a pasta e enfrentar a crise.
Síntese
Felipe Vital constrói sua candidatura sobre três pilares: confronto direto com as facções, integração das forças públicas e prevenção social permanente. Ao mesmo tempo, usa as ameaças sofridas, os resultados que atribui à própria gestão e a história familiar como credenciais para entrar na disputa eleitoral.
Fonte: entrevista concedida pelo coronel Felipe Vital ao BotoCast, do Boto na Rede. Números operacionais, avaliações sobre indicadores, atribuições de ameaças e resultados de programas aparecem como declarações do entrevistado.
O ex-secretário também criticou a audiência de custódia e a progressão de pena. Na avaliação apresentada por ele, o sistema político e jurídico estaria concedendo atenção excessiva aos direitos dos presos, enquanto familiares de policiais e de cidadãos assassinados não receberiam tratamento equivalente.
“A gente só vê uma política para beneficiar o vagabundo: audiência de custódia, ‘ah, porque é o coitadinho’, progressão de pena. Ninguém foi lá visitar a família do cabo que morreu com um tiro na cabeça. Ninguém vai visitar a família do cidadão que morreu pelo crime, mas vai lá com o criminoso. Para o criminoso, ele tem que analisar e falar: ‘Rapaz, o negócio está pesado agora, não vou cometer o crime, não’”, disse.
Apesar do discurso favorável ao endurecimento da repressão, Vital afirmou que o enfrentamento ao crime não pode se resumir a prisões, confrontos ou mortes. Ele defendeu políticas preventivas direcionadas a crianças, adolescentes e famílias vulneráveis. Ao falar, porém, sobre pessoas que recebessem oportunidades e ainda assim optassem deliberadamente pelo crime, utilizou uma formulação direta.
“Não é só repressão, não é só combater e matar. Você tem que fazer um trabalho preventivo, dar condição para a família e para aquela criança ter oportunidade. Lógico que vai ter outro que vai falar: ‘Não quero, eu quero ser criminoso’. Aí, para ele, só tem dois caminhos: o caixão e a prisão. Se ele não quiser mudar, ele só vai ter essas duas opções na vida”, declarou.
As críticas foram estendidas a políticos que passaram a adotar a segurança pública como bandeira eleitoral. Vital afirmou que enfrentou o que classificou como o pior momento da segurança pública de Rondônia sem receber a presença ou o auxílio de deputados, senadores e outros representantes.
Segundo ele, depois da crise, candidatos passaram a se apresentar como responsáveis por soluções para o setor. “Agora está todo mundo falando de segurança pública. Todo mundo é o pai da segurança pública, todo mundo vai resolver o problema da segurança pública. Mas não é fácil, não é assim. Você tem que saber na pele”, afirmou.
Vital disse ter vivenciado pessoalmente o período em que uma facção teria decidido “medir força” com o Estado. Em sua avaliação, a estrutura pública corria o risco de ser derrotada caso não houvesse integração anterior, investimento, inteligência e apoio do governo estadual. Ele afirmou que uma eventual vitória simbólica da organização criminosa produziria a imagem de que o grupo era mais forte do que as instituições.
Antes de enfrentar diretamente as facções, porém, Vital declarou ter encontrado uma disputa interna entre os próprios órgãos responsáveis pela segurança. Conforme seu relato, o maior desafio inicial não era o tamanho da fronteira com a Bolívia, o tráfico de drogas ou a deficiência de efetivo, mas a dificuldade de colocar as instituições sob uma mesma estratégia.
“Era uma guerra de egos e vaidade entre Polícia Civil, Polícia Militar e Politec, cada um querendo puxar para o seu lado. Eu falava: ‘Se continuar dessa forma, daqui a pouco a facção vai dominar, vai vencer, e o crime vai dominar o Estado’. Tem vagabundo para todo mundo, tem preso para todo mundo. A gente precisava unir forças e lutar contra o crime”, declarou.
O ex-secretário contou que assumiu a pasta em outubro de 2022, durante o segundo turno da campanha de reeleição do governador coronel Marcos Rocha. Segundo Vital, Porto Velho figurava naquele período entre as dez capitais mais violentas do Brasil. Ele afirmou que recebeu “carta branca” para atuar.
Vital relatou que chegou a perguntar ao governador se ele realmente pretendia colocar um tenente-coronel do Corpo de Bombeiros à frente da Segurança Pública. Conforme a versão apresentada na entrevista, Marcos Rocha teria respondido que passou três dias orando e avaliando diferentes nomes, mas concluíra que Vital deveria assumir a função.
“Ele falou: ‘Vital, eu orei e orei. Já estou há três dias pensando em mudar. Pensei em coronel, pensei em delegado, mas só vem você na minha cabeça. Então, já entendi que é para você assumir. Vá para cima, tem carta branca’”, contou.
A crise relatada pelo coronel envolveu ataques contra policiais, estabelecimentos e moradores, além de ordens atribuídas a facções para que o comércio encerrasse as atividades mais cedo. Vital disse que a insegurança se agravou depois da morte de um policial identificado na conversa como Oliveira, que teria servido com um dos entrevistadores no Exército.
O ex-secretário afirmou que a morte exigiu uma “resposta mais pesada”. Para ele, quando uma organização criminosa consegue assassinar um profissional armado e treinado, a população passa a se considerar ainda mais vulnerável. “Se estão matando polícia, imagina eu, cidadão comum, que não tenho arma e não sou da segurança pública”, declarou, ao descrever o sentimento que, segundo ele, se espalhou por Porto Velho.
Antes do episódio, as forças estaduais já planejavam recuperar casas e apartamentos que, segundo Vital, haviam sido tomados de proprietários por integrantes de facções. A iniciativa começou no residencial Morar Melhor, dentro do programa Aliança pela Vida — Moradia Segura. A intenção, conforme relatou, era levar posteriormente o mesmo modelo ao Orgulho do Madeira.
A morte do policial teria antecipado a entrada das forças de segurança no Orgulho do Madeira. Vital afirmou que a operação provocou uma sequência de ataques e represálias de criminosos que tratavam o residencial como seu “quartel-general”.
A resposta reuniu Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Politec, sistema socioeducativo, Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas e Assembleia Legislativa, além de outros órgãos. Vital disse que a mobilização tinha o objetivo de demonstrar que o comando territorial pertencia ao poder público.
“Quando o Estado tem esse pensamento, ele sai patrolando tudo, porque a estrutura que o Estado tem de inteligência, efetivo e armamento a facção não consegue chegar nem aos pés. O problema é quando o Estado não comanda. Aí o crime vai ganhando espaço”, afirmou.
Ao defender essa lógica, Vital citou operações realizadas em comunidades do Rio de Janeiro e a política de segurança pública de El Salvador. Ele reconheceu a ocorrência de mortes durante intervenções, mas argumentou que a entrada progressiva do Estado impede organizações criminosas de conservar o domínio territorial.
Em outro momento da entrevista, o ex-secretário afirmou ter recebido ameaças provenientes do Rio de Janeiro. Segundo ele, as mensagens e ligações foram enviadas por uma pessoa identificada pelo apelido de “Neguinho PC”, que Vital associou ao Comando Vermelho e ao Complexo do Alemão.
“Eu recebi a ameaça. Recebi ligação e mensagem do vulgo Neguinho PC, lá do Complexo do Alemão, do Comando Vermelho. Tenho salvo aqui no meu celular. A Polícia Civil sabe disso, a Polícia Federal sabe disso. Mapearam, conseguiram chegar a quem era e de onde era, mas não conseguiram prender”, relatou. A atribuição da identidade, do vínculo criminoso e da origem da ameaça foi feita pelo próprio entrevistado, sem apresentação pública de documentos durante a conversa.
Vital afirmou que poderia ter sido morto durante a passagem pela secretaria e que, nessa hipótese, seria lembrado apenas como uma história do período. Disse que colocou a vida “a prêmio”, mas continuou trabalhando por confiar em Deus e por entender que aquela era sua missão.
Conforme o relato, ele passou a usar colete e segurança durante 24 horas. A proteção também teria alcançado integrantes da família. Vital ainda afirmou que um estagiário lotado no Departamento Estadual de Trânsito estaria ligado a uma facção e teria acessado dados relacionados à residência do então secretário. A declaração foi apresentada sem identificação nominal do servidor.
O coronel relatou ainda que pessoas que publicaram ameaças nas redes sociais foram localizadas. Segundo ele, um adolescente foi apreendido, outro suspeito morreu depois de reagir em confronto com a polícia e um terceiro foi encontrado em outro estado, transportado de avião e recebido pessoalmente por Vital no aeroporto.
Ao falar dos resultados de sua administração, o ex-secretário afirmou que o período registrou a maior apreensão de drogas da história estadual, com 14 toneladas. Ele relacionou esse volume ao aumento das ameaças contra sua vida e à insatisfação das organizações criminosas. O número foi apresentado pelo entrevistado, sem detalhamento, no podcast, das operações ou do intervalo estatístico considerado.
Vital sustentou que praticamente todos os indicadores criminais de Rondônia caíram durante sua administração. Admitiu, entretanto, que não houve redução em três áreas: feminicídio, violência doméstica e abuso sexual infantil. Segundo ele, os investimentos, aplicativos de acionamento, visitas da Patrulha Maria da Penha e reuniões com a Rede Lilás e o Ministério Público não foram suficientes para reverter os índices.
O ex-secretário disse ter analisado individualmente 25 feminicídios registrados no ano anterior. Conforme os dados citados por ele, 12 agressores já possuíam passagem relacionada à violência doméstica. Nenhuma das 25 vítimas, porém, teria medida protetiva.
“Dos 25 casos, nenhuma vítima tinha medida protetiva. Então, o Estado não tinha como saber que aquela vítima estava sofrendo algum tipo de violência doméstica”, afirmou. Vital atribuiu a ausência de denúncias a fatores como dependência financeira, dependência emocional, existência de filhos, medo da exposição e esperança de recuperação do relacionamento.
Para o coronel, a polícia não consegue manter um agente dentro de cada residência e agir sobre conflitos que não chegam ao conhecimento do Estado. A conclusão apresentada por ele foi a de que a violência contra mulheres e crianças precisa ser enfrentada no ambiente familiar, na escola e por meio de políticas sociais.
Vital contou ter encontrado, durante uma operação no Morar Melhor, uma menina de 12 anos grávida e um garoto de 11 anos que se apresentava como integrante do Comando Vermelho. Segundo ele, as duas situações reforçaram sua interpretação de que o problema começava dentro das famílias e não poderia ser resolvido apenas com viaturas ou prisões.
O entrevistado defendeu a inclusão, na grade escolar, de conteúdos sobre violência doméstica e abuso sexual. Argumentou que crianças precisam aprender a identificar toques inadequados, agressões e outras formas de abuso, além de compreender que a violência testemunhada dentro de casa não deve ser normalizada.
Também defendeu escolas em tempo integral, atividades esportivas, cursos de informática, formação profissional, educação religiosa de caráter ecumênico e acompanhamento contínuo de adolescentes moradores de residenciais populares. Para Vital, um programa iniciado com jovens de 14 anos poderia, ao final de um mandato de quatro anos, entregar adultos de 18 anos com formação e menor exposição ao recrutamento de facções.
Ao tratar desse assunto, o coronel criticou candidatos que, segundo ele, aparecem nas comunidades somente durante o período eleitoral. “A gente só vê o candidato entrar lá nesse período para pedir voto, para comprar voto, para falar: ‘Teu voto vale tanto’”, declarou.
Vital ponderou que a compra de votos não pode ser analisada exclusivamente como falha moral do eleitor de baixa renda. Segundo ele, moradores abandonados pelo poder público podem aceitar um benefício imediato porque não receberam assistência durante os anos anteriores. “Às vezes é um cidadão humilde que fala: ‘Nunca ajudaram em nada. Vou votar porque esse aqui pelo menos está ajudando’”, afirmou.
Na mensagem final, voltou ao tema e mencionou a troca de voto por cestas básicas, cargos ou quantias de R$ 50, R$ 100 e R$ 200. O coronel afirmou que o eleitor que vende a escolha perde força para cobrar saúde, educação, segurança, infraestrutura e saneamento do candidato beneficiado.
“Se você for cobrar aquele que pagou, ele vai falar: ‘Não vem me encher o saco, não, que eu te paguei’”, declarou, ao sustentar que esse tipo de relação continua ocorrendo no Brasil.
Outra discussão envolveu pessoas em situação de rua e os furtos cometidos na região central e comercial. Vital afirmou que comerciantes procuravam a secretaria para relatar arrombamentos e subtrações. Conforme sua análise, parte significativa desses delitos tinha ligação com pessoas que furtavam para sustentar o consumo de drogas.
O coronel argumentou, no entanto, que o fenômeno não deveria ser tratado exclusivamente como questão policial. Defendeu que o poder público identifique cada pessoa, sua origem e os motivos pelos quais passou a viver nas ruas, oferecendo tratamento de saúde e assistência social. Na visão exposta por ele, prender repetidamente alguém que retorna às ruas pouco depois do registro da ocorrência não elimina a causa dos delitos.
A experiência na segurança levou Vital a declarar que pretende atuar também nas áreas social e educacional. Entre as ideias mencionadas estão a instalação de creches que funcionem 24 horas em grandes conjuntos habitacionais, cursos profissionalizantes permanentes, escolinhas esportivas e projetos mantidos conjuntamente por prefeituras, governo estadual e parlamentares.
Ele defendeu ainda a reserva de um percentual dos cargos comissionados do governo e da Assembleia Legislativa para mães de crianças atípicas. A ideia surgiu durante a conversa sobre famílias em situação de vulnerabilidade e mulheres que precisam cuidar de filhos com deficiência ou transtornos do desenvolvimento sem apoio do pai ou renda suficiente.
Vital também mencionou iniciativas implantadas durante sua passagem pela secretaria. Disse que a Patrulha Rural utilizou um aplicativo para cadastrar propriedades e realizou mais de 33 mil visitas. Segundo ele, o objetivo era ampliar a presença policial nas áreas produtivas e permitir que agricultores acompanhassem o atendimento.
No Baixo Madeira, relatou ações contra os chamados “Piratas do Madeira”, grupo que, de acordo com sua descrição, abordava embarcações, atuava em comunidades ribeirinhas, vendia drogas e participava de roubos de cargas de soja. Vital afirmou que a ausência de patrulhamento regular no rio levou empresas a contratarem segurança privada e contribuiu para a aquisição de uma embarcação blindada pelo poder público.
O coronel disse ter visitado a comunidade de Cavalcante e gravado um vídeo no qual avisava que criminosos não conseguiriam se esconder naquela região. Segundo ele, havia 12 foragidos identificados e todos foram posteriormente capturados com a participação da população, que encaminhava informações pelas redes sociais.
A trajetória pessoal ocupou o terço final da entrevista. Natural de Manaus, Felipe Vital contou que ingressou no Exército Brasileiro em 2002, aos 18 anos. No ano seguinte, aos 19, foi transferido para Porto Velho e não retornou definitivamente à capital amazonense.
Vital permaneceu sete anos no Exército, servindo na Brigada e, durante determinado período, na 17ª Base Logística. Ao deixar a instituição, iniciou o curso de soldado do Corpo de Bombeiros, apesar de ter sido primeiro-tenente do Exército.
Um concurso para o oficialato dos bombeiros, realizado três anos antes, estava paralisado judicialmente. Vital declarou que aparecia na 27ª posição para cinco vagas. Quando a seleção foi destravada e houve ampliação das convocações, ele ingressou no Corpo de Bombeiros, em 2009.
O coronel afirmou ter realizado especialização no Rio Grande do Sul, formação em gestão de segurança pública e MBA nas áreas de inteligência e gestão em segurança pública. Trabalhou como chefe da inteligência da Casa Militar durante o governo Daniel Pereira e exerceu funções ligadas à inteligência na Secretaria de Gestão de Pessoas e na Casa Civil durante o governo Marcos Rocha. Em 2022, recebeu o convite para assumir a Segurança Pública e deixou o cargo em abril para iniciar o projeto eleitoral.
Na esfera familiar, apresentou-se como marido de Sabrina Vital e pai de Thalita, de 15 anos. Contou que o casal esperava outro bebê e que, até aquele momento, ele ainda não sabia se seria menino ou menina. Disse ter uma irmã residente em Boa Vista e um irmão que vive em Manaus.
Vital relatou que os pais foram assassinados em 2018, no mesmo dia e horário. Segundo ele, a perda influenciou diretamente a maneira como conduziu a Secretaria de Segurança e produziu uma “sede de justiça” associada à lembrança das demais famílias atingidas pela criminalidade.
Ao recordar a infância, contou que morou em uma área de invasão e passava parte do dia nas ruas enquanto os pais trabalhavam. Disse ter convivido com a oferta de drogas e outras situações de risco, mas recebeu acompanhamento familiar, frequentou igreja e foi obrigado pela mãe a participar de diferentes cursos.
Entre as formações mencionadas estavam panificação, barbearia e informática. O coronel afirmou que não queria ser padeiro nem barbeiro, mas a mãe insistia para que ocupasse o tempo e aprendesse novas atividades. Aos 18 anos, já havia obtido habilitação e ingressado no Exército.
Vital disse que trabalhou vendendo pão e frutas e como ajudante de pedreiro. Utilizou a própria história ao narrar um encontro recente com um adolescente que vendia tapiocas para ajudar a mãe em Porto Velho. O jovem teria contado que o pai se envolveu com drogas, bebidas e criminalidade e estava afastado da família havia anos.
“Eu falei para ele: ‘Eu vendia pão, vendia fruta e trabalhei de ajudante de pedreiro. Com 18 anos, entrei no Exército. Vim parar com 19 em Porto Velho e olha onde estou hoje. Corra atrás dos seus sonhos, ajude sua mãe, estude e não deixe o mundo do mal dominar você’”, relatou.
Em uma dinâmica de respostas rápidas, Vital definiu a família como “prioridade”, associou a fé à “disciplina”, apontou Jesus Cristo como líder, descreveu seu sonho como “fazer a diferença na vida das pessoas”, classificou Rondônia como “oportunidade” e relacionou a política à palavra “esperança”.
Ao explicar a candidatura, afirmou que nunca havia planejado concorrer a cargo eletivo. Disse ter recebido convites anteriores e recusado, mas passou a considerar a disputa depois de concluir que as decisões políticas influenciam diretamente a segurança, a saúde, a educação, a tributação e os demais serviços públicos.
Vital declarou que pretende ser lembrado como “o melhor deputado que Rondônia já teve”, produzindo leis, articulações e resultados concretos. Disse que não pretende gastar recursos para construir artificialmente uma imagem, pois acredita já ter apresentado seu trabalho à população durante a passagem pela administração estadual.
No encerramento, afirmou que eleitores desiludidos ainda poderiam alterar a realidade por meio de escolhas conscientes. Para o coronel, quando pessoas consideradas por ele “de bem” se afastam da política, permitem que interesses criminosos ou particulares ocupem os espaços de decisão.
DEZ FRASES DE VITAL NO BOTOCAST
01) “A partir do momento em que o representante do povo não faz o seu trabalho para dificultar a vida do crime, ele está do lado do criminoso.”
Vital incluiu presidentes, deputados, vereadores e outros agentes públicos na declaração. A fala foi apresentada durante a defesa de leis mais severas, reforço das fronteiras e maior atuação das forças federais.
02) “O nosso presidente poderia classificar as facções como grupos terroristas.”
O coronel afirmou que o Brasil não precisaria esperar uma iniciativa dos Estados Unidos para adotar esse enquadramento. A declaração integrou sua defesa de uma política nacional mais rígida contra organizações criminosas.
03) “Era uma guerra de egos e vaidade entre Polícia Civil, Polícia Militar e Politec, cada um querendo puxar para o seu lado.”
Vital disse que a falta de integração institucional foi o principal problema encontrado quando assumiu a Segurança Pública. Segundo ele, o conflito interno ameaçava favorecer o avanço das facções.
04) “Quando o Estado comanda, ele sai patrolando tudo; o problema é quando o Estado não comanda, porque aí o crime vai ganhando espaço.”
A frase foi usada para descrever a mobilização de órgãos estaduais, federais e instituições de Justiça durante as operações no Morar Melhor e no Orgulho do Madeira.
05) “Eu recebi ligação e mensagem do vulgo Neguinho PC, lá do Complexo do Alemão, do Comando Vermelho.”
O ex-secretário afirmou que Polícia Civil e Polícia Federal identificaram a origem da ameaça, mas não conseguiram prender o responsável. Disse ter guardado as mensagens no telefone.
06) “Não é só repressão, não é só combater e matar; você tem que fazer um trabalho preventivo.”
A declaração antecedeu a defesa de projetos educacionais, esportivos e profissionalizantes para crianças e adolescentes expostos ao recrutamento de organizações criminosas.
07) “Se ele não quiser mudar e disser que quer ser criminoso, só tem dois caminhos: o caixão e a prisão.”
Vital utilizou a frase ao diferenciar jovens que aceitariam oportunidades daqueles que, mesmo assistidos pelo poder público, optariam deliberadamente pela criminalidade.
08) “Agora está todo mundo falando de segurança pública; todo mundo é o pai da segurança pública.”
O coronel acusou representantes políticos de não comparecerem durante o período que classificou como a pior crise de segurança de Rondônia, mas de adotarem posteriormente o tema como bandeira eleitoral.
09) “A gente só vê o candidato entrar lá nesse período para pedir voto, para comprar voto e falar: ‘Teu voto vale tanto’.”
A crítica foi feita ao tratar da ausência permanente do poder público em conjuntos habitacionais e comunidades periféricas. Vital defendeu assistência contínua, e não apenas presença em anos eleitorais.
10) “Meus pais foram assassinados no mesmo dia e na mesma hora; por isso trabalhamos com sede de justiça.”
Vital relacionou o assassinato dos pais, ocorrido em 2018, à forma como conduziu a Secretaria de Segurança. Segundo ele, a experiência pessoal fez com que pensasse nas demais famílias atingidas pela violência.
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