Deputado de Rondônia apresentou o primeiro requerimento específico de CPI na Câmara, reuniu 185 assinaturas e acompanhou uma apuração que passou a envolver empréstimos consignados, contratos milionários e integrantes do Judiciário
Porto Velho, RO – A Polícia Federal abriu as portas do escândalo na manhã de 23 de abril de 2025. A Operação Sem Desconto, realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União, expôs um mecanismo de cobranças não autorizadas que retirava dinheiro diretamente dos benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social. No mesmo dia em que a investigação ganhou as ruas, uma reação começou a tomar forma nos corredores da Câmara dos Deputados.
O movimento levava a assinatura de um parlamentar de Rondônia. Coronel Chrisóstomo, do PL, iniciou a coleta de apoios para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada especificamente a investigar o que passou a chamar de “roubo dos aposentados”. A descoberta do esquema não partira dele, tampouco o trabalho da Polícia Federal estava subordinado ao Congresso. O deputado assumiu outra função dentro daquele enredo: deu início à frente parlamentar aberta na Câmara tão logo a operação revelou a dimensão do caso.
Uma semana depois, em 30 de abril, o requerimento foi protocolado com 185 assinaturas de deputados pertencentes a 14 partidos. Registrado como RCP 2/2025, o documento indicava Chrisóstomo como autor e delimitava como objeto da CPI os sindicatos e associações envolvidos em descontos realizados sem autorização. Os valores mencionados naquele momento poderiam alcançar R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
Ao entregar o pedido, o deputado também defendeu que Carlos Lupi deixasse o Ministério da Previdência Social durante a apuração. “Não dá para uma CPI investigar casos, muito deles políticos, com ministro fazendo seus acordos contra as investigações”, declarou em reportagem publicada pela Agência Câmara em 30 de abril de 2025. A frase expunha o tom com que Chrisóstomo pretendia conduzir a discussão: a investigação deveria sair dos gabinetes administrativos e ocupar também o plenário do Parlamento.
O pedido não resultou na instalação imediata de uma comissão exclusiva da Câmara. Outros requerimentos já aguardavam análise, e as regras internas limitavam o número de CPIs em funcionamento simultâneo. Enquanto a proposta permanecia na fila, parlamentares da oposição passaram a trabalhar por uma comissão mista, composta por deputados e senadores.
A CPMI que efetivamente funcionaria nasceu de outro documento. O RQN 7/2025 teve como autoras formais a deputada Coronel Fernanda, do PL de Mato Grosso, e a senadora Damares Alves, do Republicanos do Distrito Federal, além de outros signatários. Chrisóstomo apoiou a nova iniciativa e continuou cobrando a investigação, mas os dois requerimentos permaneceram juridicamente distintos. O deputado rondoniense era o autor da CPI proposta na Câmara. Coronel Fernanda e Damares encabeçavam o requerimento que criou a comissão mista.
A diferença entre os documentos estabelece o tamanho exato do protagonismo de Chrisóstomo. Ele não foi o autor exclusivo da CPMI nem poderia ser responsabilizado individualmente pelas decisões tomadas mais tarde pelo colegiado. Foi, porém, o parlamentar que colocou em circulação o primeiro requerimento específico de CPI na Câmara depois da Operação Sem Desconto, iniciou a coleta de assinaturas e levou o caso à arena legislativa enquanto a Polícia Federal e a CGU avançavam por suas próprias linhas de investigação.
Em 17 de junho de 2025, o presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre, leu o RQN 7/2025 durante uma sessão conjunta. O ato criou a CPMI destinada a investigar os descontos irregulares nos benefícios previdenciários. No dia seguinte, Chrisóstomo subiu à tribuna da Câmara e recompôs publicamente o caminho percorrido desde abril.
“Foi uma luta de enfrentamento mesmo, mas tivemos o apoio dos meus colegas Parlamentares do PL, da Oposição e da Minoria”, afirmou em 18 de junho. No mesmo pronunciamento, reconheceu que sua CPI não havia sido instalada e direcionou as expectativas para a comissão mista. “Espero que os melhores resultados aconteçam”, declarou, antes de enumerar as finalidades que atribuía ao colegiado: identificar os responsáveis, buscar punições e recuperar o dinheiro retirado dos beneficiários.
A criação formal ainda não significava funcionamento imediato. Os partidos precisavam indicar seus representantes. A instalação ocorreu em 20 de agosto de 2025, quatro meses depois do início da Operação Sem Desconto. O senador Carlos Viana, de Minas Gerais, foi eleito presidente. O deputado Alfredo Gaspar, de Alagoas, assumiu a relatoria. A comissão recebeu inicialmente 180 dias para realizar oitivas, requisitar informações, transferir sigilos e identificar possíveis responsabilidades.
Na manhã da instalação, Chrisóstomo concedeu entrevista à Rádio Câmara. O veículo registrou que ele considerava difícil evitar a polarização e a exploração política da investigação. A preocupação não reduziu o envolvimento do deputado, que passou a acompanhar as reuniões, questionar depoentes e cobrar medidas relacionadas ao ressarcimento dos aposentados.
Em 26 de agosto, a CPMI aprovou seu plano de trabalho. Ex-ministros, antigos dirigentes do INSS, representantes de entidades e pessoas apontadas nas investigações começaram a ser chamados. Em setembro, durante a oitiva do ex-ministro Ahmed Mohamad Oliveira, Chrisóstomo questionou o fato de o governo devolver valores aos aposentados antes de cobrar as empresas acusadas de realizar os descontos. A manifestação foi registrada pela Agência Câmara em 11 de setembro de 2025.
O deputado voltou ao assunto no plenário em 9 de outubro, depois de uma diligência da Polícia Federal em uma entidade dirigida por um irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O sindicato do irmão de Lula recebeu visita da Polícia Federal, o que confirma que a CPMI está no caminho certo”, disse. A fala exprimia a avaliação política de Chrisóstomo sobre o andamento do caso, sem representar uma conclusão coletiva da comissão.
A investigação parlamentar começou a mudar de tamanho quando ultrapassou os descontos associativos. O trabalho chegou aos empréstimos consignados e, por essa via, ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. A CPMI passou a examinar aproximadamente 254 mil operações que teriam sido formalizadas sem o conhecimento dos aposentados. A instituição financeira, até então situada na margem da apuração previdenciária, aproximava-se do centro dos trabalhos.
Em 1º de dezembro de 2025, foram apresentados requerimentos relacionados a Vorcaro. Três dias depois, a comissão aprovou a convocação do banqueiro e medidas de transferência de sigilo. Documentos chegaram ao Congresso e foram mantidos em uma sala-cofre. Parte do material tornou-se objeto de decisões judiciais, disputas sobre acesso e determinações envolvendo os ministros Dias Toffoli e André Mendonça.
O caso entrava em ebulição. Aquilo que começara com descontos de mensalidades em benefícios previdenciários agora alcançava uma instituição financeira, milhares de empréstimos consignados, movimentações bancárias e relações mantidas por Daniel Vorcaro com pessoas ligadas aos Poderes da República. Chrisóstomo acompanhava a ampliação e reivindicava o reconhecimento pela iniciativa tomada quando o escândalo ainda dava seus primeiros passos no Congresso.
Em 3 de março de 2026, durante uma sessão da Câmara, o deputado falou de maneira direta sobre o papel que atribuía a si próprio. “Porque eu criei a CPI sobre o roubo aos aposentados! Eu sou o criador, Brasil!”, afirmou. Em seguida, delimitou a cronologia: “Depois, foi criada a CPMI, mas a primeira assinatura fui eu que colhi.”
A afirmação encontra sustentação na autoria do RCP 2/2025 e no início da coleta realizada na Câmara. Não altera, contudo, a autoria formal do RQN 7/2025 nem transforma Chrisóstomo no responsável individual pelas diligências posteriores. O parlamentar deu o pontapé inicial na reação da Câmara; a CPMI nasceu de uma articulação mais ampla, assumiu direção própria e passou a deliberar coletivamente.
Foi nesse trecho da apuração sobre o Banco Master que apareceu outra relação. A instituição mantinha um contrato com o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, e integrado também por filhos do casal. As informações divulgadas apontavam um acordo estimado em R$ 129 milhões durante três anos, com pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,6 milhões.
O escritório informou que prestou consultoria jurídica e atuou na Justiça para o banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Segundo a banca, 15 advogados participaram do trabalho, 36 pareceres foram produzidos e 94 reuniões foram realizadas. O comunicado também declarou que o escritório nunca conduziu causas do Master no Supremo Tribunal Federal. A existência do contrato, isoladamente, não comprova a participação de Viviane ou de Alexandre de Moraes nas fraudes contra aposentados.

O acordo foi incluído no parecer elaborado pelo relator Alfredo Gaspar. O documento recomendava que o Senado, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal examinassem a contratação para verificar se havia ou não elementos relacionados a tráfico de influência. Tratava-se de uma proposta de aprofundamento investigativo, não de uma conclusão de culpa.
A disputa seguinte ocorreu em torno do tempo. Com documentos acumulados e novas conexões em exame, Chrisóstomo apresentou requerimento para prolongar os trabalhos por mais 60 dias. André Mendonça determinou que o Congresso viabilizasse a prorrogação, mas o plenário do Supremo derrubou a decisão por oito votos a dois.
A CPMI chegou ao fim na madrugada de 28 de março de 2026. O parecer de Alfredo Gaspar, com aproximadamente 4 mil páginas e mais de 200 pedidos de indiciamento, foi rejeitado por 19 votos a 12. Um texto alternativo preparado pela base governista não foi submetido à votação. Depois de sete meses, a comissão encerrou suas atividades sem relatório final aprovado.
A rejeição impediu que as recomendações se tornassem conclusões oficiais do colegiado. Carlos Viana anunciou, entretanto, que encaminharia cópias do parecer a instituições como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o Supremo. A comissão fechava as portas, mas os inquéritos policiais permaneciam abertos.
A Operação Compliance Zero, voltada às suspeitas de fraudes financeiras no Banco Master, recuperou registros existentes no telefone de Daniel Vorcaro. Em 1º de setembro de 2026, André Mendonça retirou o sigilo de diálogos que mencionavam Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Os documentos indicaram contatos entre o banqueiro e um número atribuído ao ministro, além de encontros anteriores.
Mendonça defendeu que o plenário do Supremo examinasse os novos elementos em sessão presencial. Gonet pediu a anulação da apuração relativa às conversas, argumentando que diligências envolvendo Moraes não poderiam ter sido aprofundadas sem autorização do colegiado. Moraes reagiu com um pedido de investigação contra Mendonça por supostos atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
Chrisóstomo voltou a se manifestar. “Sempre tenho dito que o ministro André Mendonça não vai dar mole para ninguém. Deus o colocou onde ele está hoje para fazer justiça”, escreveu nas redes sociais no início de setembro. A declaração expressava a posição do deputado diante da disputa e não antecipava o resultado jurídico do procedimento.
O parlamentar também aderiu ao movimento que passou a pedir o impeachment de Moraes. Em 4 de setembro, a Band incluiu Chrisóstomo entre os deputados que subscreveram o documento articulado por Damares Alves. A iniciativa ainda dependia do Senado, a quem cabe processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade.
Até então, Alexandre de Moraes não havia sido afastado nem destituído. O presidente do Supremo, Edson Fachin, havia concedido cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentassem esclarecimentos. A abertura do procedimento representava o início de uma análise institucional, não um julgamento concluído.
Entre 23 de abril de 2025 e setembro de 2026, o caso mudou várias vezes de endereço. Saiu das mesas da Polícia Federal e da CGU, percorreu os corredores da Câmara, entrou na sala-cofre da CPMI e chegou aos gabinetes do Supremo. Em cada lugar, ganhou novos documentos, outros personagens e perguntas que não existiam no ponto de partida.
Chrisóstomo não foi o investigador que encontrou as mensagens de Vorcaro, não comandou as operações policiais e não decidiu os caminhos seguidos pelo STF. A marca deixada por ele é anterior, parlamentar e mais precisa: quando a fraude apareceu, foi o deputado de Rondônia quem colocou sobre a mesa da Câmara o primeiro requerimento específico de CPI, tomou para si a coleta das assinaturas e passou a repetir o assunto na tribuna.
O destino dessa história ainda não foi escrito. Moraes continua no Supremo, os pedidos de impeachment dependem do Senado e as acusações permanecem submetidas à apuração. Na Câmara, porém, o começo dessa linha pode ser localizado em um documento de poucas páginas, protocolado com 185 assinaturas e identificado por um número: RCP 2/2025. Antes das salas-cofre, dos contratos milionários e da crise entre ministros, foi ali que Chrisóstomo deu voz parlamentar a um caso que acabara de chegar às ruas pelas mãos da Polícia Federal.
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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