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Bets deixaram prejuízo de R$ 62,5 bilhões às famílias e ampliaram casos de dependência no Brasil

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Apostas online movimentaram quase R$ 351 bilhões via Pix, alcançaram adolescentes e levaram pacientes aos serviços de saúde antes da proibição das plataformas no país

Por Yan Simon - segunda-feira, 28/09/2026 - 09h06

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Porto Velho, RO – O impacto financeiro das apostas online chegou a bilhões de reais antes da proibição das operações das bets no Brasil. Somente em 2025, famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões, considerando a diferença entre os valores apostados e o dinheiro devolvido na forma de prêmios. Ao mesmo tempo, profissionais de saúde passaram a registrar casos de dependência acompanhados de ansiedade, endividamento, isolamento e até pensamentos relacionados à morte.

Entre outubro de 2024 e março de 2026, as perdas com apostas corresponderam a uma média de R$ 4,7 bilhões por mês. O montante equivale a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. Durante o mesmo período, aproximadamente R$ 351 bilhões foram movimentados em transações via Pix envolvendo casas de apostas.

Os números constam no Boletim Fiscal dos Estados, divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), e ajudam a dimensionar o avanço de uma atividade que também passou a mobilizar estruturas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em agosto, diante do crescimento dos problemas relacionados à dependência em jogos, o SUS ampliou a capacidade de teleatendimento destinada a pessoas com dificuldades provocadas pelas apostas online. Com a decisão de proibir as plataformas, anunciada na sexta-feira (25), o Ministério da Saúde informou que também intensificará a identificação e o acompanhamento de apostadores considerados contumazes.

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a estratégia prevê busca ativa com utilização de informações compartilhadas pelos ministérios da Fazenda e da Segurança, além da Receita Federal. Os casos identificados poderão ser direcionados para acompanhamento e tratamento.

A dimensão humana do problema pode ser observada na trajetória de Kaio*, de 42 anos. Depois de seis anos enfrentando dependência em jogos, ele perdeu o carro, a casa e o emprego em consequência das dívidas acumuladas. Atualmente, vive sozinho em um dormitório de uma cidade do interior de Goiás e dorme no chão.

O afastamento da família ocorreu por receio relacionado a dívidas contraídas com agiotas. Neste ano, Kaio procurou atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde passou a frequentar grupos terapêuticos e consultas médicas. Ele também faz uso diário de três medicamentos.

Ao saber da proibição das operações das empresas de apostas online, classificou a notícia como “um grande alívio”.

A mudança foi estabelecida pela Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25). O texto revogou dispositivos previstos no capítulo 5 da Lei 13.756, aprovada em dezembro de 2018, no último mês do governo do então presidente Michel Temer.

Embora autorizadas desde 2018, as apostas de quota fixa somente foram regulamentadas em dezembro de 2023. Na prática, as plataformas atuaram durante cerca de cinco anos sem parte das regras que posteriormente passaram a disciplinar o setor.

Após a regulamentação, foram estabelecidas exigências como a divulgação de alertas sobre os riscos das apostas e mensagens destinadas a desencorajar o jogo. Também havia previsão para que empresas impedissem o acesso de usuários identificados como jogadores compulsivos.

O advogado Júlio Leone afirmou, entretanto, que o bloqueio não era aplicado como previsto. Segundo ele, jogadores continuavam recebendo propagandas e ofertas de bônus, aumentando o risco de novas apostas e perdas financeiras. “É aí que ela perde todo o capital”, declarou anteriormente.

Kaio relata ter enfrentado situação semelhante durante o período em que apostava. “O celular não parava de trazer mensagens.”

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que pessoas em situação de vulnerabilidade estiveram entre as mais expostas aos efeitos das apostas. Parte da publicidade, segundo a especialista, transmitia a ideia de que os jogos poderiam funcionar como uma forma de complementar a renda.

Ela avalia que a busca por ganhos rápidos, associada à expectativa de retorno financeiro criada em torno das plataformas, tornou o cenário especialmente perigoso.

O alcance das apostas também chegou aos adolescentes. Levantamento realizado a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação pela Equidade.info mostrou que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio ouvidos na pesquisa disseram já ter realizado apostas online.

Foram entrevistados 1.912 alunos de 191 escolas espalhadas pelo país. Entre os dados levantados está a presença das apostas entre estudantes de apenas 11 anos. Nessa faixa etária, 9,5% disseram já ter apostado.

A psicóloga Mariana Kehl, integrante da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes apresentam maior vulnerabilidade porque áreas responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em processo de amadurecimento.

Enquanto o sistema cerebral relacionado à recompensa e à dopamina responde intensamente ao prazer proporcionado por uma vitória, as regiões responsáveis pelo controle das decisões terminam de amadurecer apenas depois dos 20 anos.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, explicou.

Os reflexos também passaram a preocupar profissionais responsáveis pelo atendimento de pessoas com transtornos relacionados ao jogo. Entre os sinais relatados estão desesperança, isolamento social, mudanças importantes de comportamento, aumento no consumo de álcool e a sensação de não haver saída para os problemas financeiros.

Katia Branco alerta que manifestações envolvendo vontade de morrer ou ausência de perspectiva de continuar vivendo precisam ser tratadas com atenção e acompanhamento profissional. Segundo a psiquiatra, a abordagem direta do tema durante consultas e grupos terapêuticos pode contribuir para reduzir riscos.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, afirmou.

A especialista também relatou a presença de altos níveis de ansiedade entre pessoas que acumularam prejuízos relacionados ao jogo. Nos casos mais graves, os problemas financeiros passaram a ser acompanhados por pensamentos de morte e ideação suicida.

Para o neurocirurgião Orlando Maia, uma das dificuldades no enfrentamento da dependência ocorre quando o próprio jogador não consegue identificar o comportamento como um problema. Nessas situações, familiares e amigos podem desempenhar papel importante na busca por atendimento.

A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Caps no Distrito Federal, também recomenda acompanhamento profissional aos dependentes e às famílias. Segundo ela, unidades desse tipo recebem inclusive pessoas que apresentaram pensamentos suicidas ou realizaram tentativas de tirar a própria vida.

A disponibilidade permanente das plataformas agravava o cenário, de acordo com especialistas. Diferentemente de modalidades presenciais, os jogos podiam ser acessados pelo telefone celular a qualquer momento do dia.

Integrante dos Jogadores Anônimos, Luiz Carlos*, de 71 anos, resumiu essa facilidade ao afirmar que “é um cassino dentro do seu bolso”. Ele contou que, no período em que jogava, era necessário sair de casa para realizar apostas, enquanto atualmente o acesso pode ser feito diretamente pelo celular.

A combinação entre facilidade de acesso, publicidade intensa, busca por retorno financeiro rápido e mecanismos de recompensa esteve no centro das preocupações levantadas por profissionais da saúde durante o crescimento das bets no país. Com a proibição das plataformas, autoridades passam a concentrar esforços no atendimento das pessoas que desenvolveram dependência e na redução dos efeitos financeiros e psicológicos provocados pelas apostas.

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)





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