Coluna explica as diferentes leituras sobre o “voto silencioso”, analisa as estratégias de Rogério, Fúria e Hildon na reta final, os desafios da esquerda e a disputa pelas duas cadeiras de Rondônia no Senado
Prof. Herbert Lins – MTE 1143
O jogo virou estratégia: Marcos Rogério quer liquidar no primeiro turno, Fúria aposta no interior e Hildon divide forças
CARO LEITOR, recebi centenas de mensagens de leitores pedindo que eu definisse o chamado “voto silencioso” nas eleições. Academicamente, não há um único autor ou conceito para a expressão: existem três vertentes distintas que utilizam o mesmo termo. A tradição acadêmica brasileira trata o “voto do silêncio” como abstenção, uma das abordagens mais antigas nas universidades. Nesse campo, vale citar José Garcez Ghirardi e Luciana Gross Cunha, autores do artigo “O voto do silêncio: abstenção eleitoral, representações de cidadania e participação política na pós-modernidade”. Para eles, o silêncio não está em esconder a preferência, mas em não comparecer às urnas. É o debate sobre abstenção, voto facultativo aos maiores de 70 anos e a descrença na representação política, tema também discutido pelo filósofo Richard Rorty. Em outras palavras: há momentos em que o silêncio também vira mensagem.
Silencioso
Na ciência política comportamental, o “voto silencioso” aparece como voto envergonhado ou subnotificado. É a interpretação que mais circula hoje nas análises eleitorais e parte da chamada “Espiral do Silêncio”, da alemã Elisabeth Noelle-Neumann.
Subnotificado
A teoria do voto subnotificado sustenta que, em determinadas eleições, parte do eleitor evita declarar sua preferência. Por medo, pressão social ou constrangimento, o voto pode não aparecer nas pesquisas da mesma forma que se manifesta diante da urna.
Referências
No Brasil, Jairo Nicolau é uma das referências nos estudos sobre comportamento eleitoral. Autor de “História do voto no Brasil” e “Sistemas eleitorais”, analisa temas como abstenção, votos nulos e brancos.
Compreender
Também entram nesse debate autores como Antônio Lavareda, Olavo Brasil de Lima Jr. e Maria do Carmo Campello de Souza, que ajudam a compreender o sistema partidário e os fatores que influenciam a decisão do eleitor.
Escolha
No jornalismo político, “voto silencioso” ou “voto envergonhado” ganhou espaço para descrever eleitores que, segundo campanhas, apoiariam determinado candidato, mas prefeririam não revelar publicamente essa escolha.
Apostar
É uma narrativa recorrente em campanhas eleitorais: candidatos afirmam apostar em um eleitor que não declara sua preferência nas pesquisas. O argumento costuma aparecer quando levantamentos e manifestações públicas não parecem contar toda a história.
Secreto
Outra interpretação ganhou força nas redes sociais: o “voto calado” como forma de resistência. A ideia descreve o eleitor que enfrenta pressões no cotidiano e usa o voto secreto para manifestar sua insatisfação dentro da urna.
Exploram
Na prática, candidatos também exploram essa narrativa. “O voto é secreto” e “vote sem medo” aparecem em vídeos e discursos para lembrar ao eleitor que sua escolha não precisa ser revelada a ninguém antes da apuração.
Movimentos
Na reta final, as três principais campanhas desenham movimentos diferentes. Marcos Rogério (PL), que aparece na liderança das últimas pesquisas divulgadas com registro no TSE, trabalha para transformar vantagem eleitoral em uma vitória ainda no primeiro turno.
Estratégia
Marcos Rogério (PL) concentra a estratégia em preservar a liderança, ampliar sua presença territorial e evitar erros nos últimos dias. A campanha passou a atuar com foco na consolidação do voto e atrair adesões de peso político.
Garantir
Adailton Fúria (PSD), por outro lado, reduziu a aposta na capital e voltou os esforços para o interior. A estratégia é territorializar a reta final, fortalecer sua base e buscar votos onde sua passagem pela Prefeitura de Cacoal e sua presença regional podem pesar para tentar garantir presença no segundo turno.
Força
Hildon Chaves (União) adotou uma estratégia diferente: divide a agenda entre Porto Velho e o interior. Na capital, procura consolidar o desempenho onde já apresenta força; no interior, busca ampliar sua votação e transformar crescimento em votos suficientes para entrar na disputa pelo segundo turno.
Jogo
No tabuleiro da reta final, portanto, cada campanha joga uma partida diferente: Marcos Rogério (PL) tenta encerrar o jogo no primeiro turno; Fúria (PSD) corre atrás do interior para sobreviver na disputa; e Hildon (União) precisa fazer capital e interior conversarem na urna.
Esquerda
Na reta final no campo da esquerda, Expedito Netto (PT), Samuel Costa (PSB) e Pedro Abib (MDB) enfrentam uma aritmética incômoda: o discurso da esquerda não encontrou, até aqui, espaço suficiente para transformar identificação ideológica em votos.
Assumiu
Expedito Netto (PT) assumiu sem rodeios o vínculo com o presidente Lula (PT-SP) e diz ter orgulho de ser de esquerda. É uma escolha política clara e, em Rondônia predominantemente de voto conservador, essa associação carrega um peso que a campanha terá de administrar até o último voto.
Problema
Samuel Costa (PSB) e Pedro Abib (MDB) tentam abrir caminhos diferentes para atrair o voto progressista e silencioso. O problema dos dois candidatos é outro: transformar candidatura em competitividade antes que a urna feche a porta.
Relevante
Rondônia tem um histórico recente de forte votação para a direita. Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) venceu no estado no primeiro e no segundo turnos, enquanto a disputa pelo governo levou dois nomes identificados com a direita ao segundo turno. É um dado político relevante, embora não seja uma sentença para 2026.
Lutam
O ponto mais ácido da eleição é justamente esse: se a disputa estadual for contaminada pelo plebiscito nacional sobre Lula e Bolsonaro, a esquerda terá pouco espaço para respirar. Se os eleitores repetirem o padrão recente, Netto (PT), Samuel (PSB) e Abib (MDB) lutam não apenas contra adversários locais, mas contra uma maré política que hoje corre em outra direção.
Ativo
Na reta final, a disputa pelas duas cadeiras do Senado virou uma guerra de posicionamento. Bruno Bolsonaro Scheid (PL) tem um ativo que nenhum marqueteiro precisou inventar: o próprio nome “Bolsonaro” na campanha e o número na urna como senha para o eleitor mais identificado com a direita.
Licença
Bruno Scheid (PL) também assumiu um discurso ideológico mais explícito, ocupando um espaço que Fernando Máximo (PL) explora com menos intensidade. A estratégia é clara: disputar o voto bolsonarista sem pedir licença. Nas pesquisas, porém, o cenário segue aberto e varia conforme instituto e metodologia.
Enfrenta
Falando em Fernando Máximo, o candidato do PL enfrenta outro problema: precisa responder ao marketing de Sílvia Cristina (PP), que transformou a prestação de contas do mandato em argumento eleitoral.
Contraditório
A deputada sustenta que ajudou a viabilizar quatro hospitais em Rondônia e pergunta: Quantos Máximo entregou? É justamente aí que a campanha de Máximo encontra uma avenida para o contraditório. A afirmação sobre os “quatro hospitais” exige separar entregas, participações e responsabilidades institucionais.
Anterior
O Hospital de Amor, por exemplo, tem uma história anterior ao mandato de Sílvia Cristina (PP), envolvendo a Fundação Pio XII e articulações políticas do governador Confúcio Moura (MDB) à época e do ex-senador Valdir Raupp (MDB), da ex-deputada federal Marinha Raupp (MDB) e do ex-deputado federal Nilton Capixaba (PTB).
Fórmula
Sílvia Cristina aposta tudo na velha fórmula que funciona na política: “eu fiz”. Sua campanha apresenta entregas e atuação na saúde como cartão de visita para o Senado. A disputa, portanto, não é apenas por votos, mas por quem consegue escrever a narrativa sobre quem efetivamente entregou o quê.
Argumento
Mariana Carvalho (Republicanos) talvez tenha deixado escapar uma oportunidade de ouro ao entrar tarde na campanha. A estratégia poderia ter explorado com mais força as entregas de seu mandato, na capital e no interior, transformando obras, recursos e resultados em argumento eleitoral.
Bairrismo
Pra salvar, a campanha perdeu a oportunidade de explorar a identidade própria no bairrismo da capital com o “Arrocha o nó, Mariana senadora de Porto Velho e de Rondônia”. Por exemplo, Jaime Bagattoli (PL) explorou o bairrismo do Cone Sul e o ajudou a ganhar o pleito eleitoral em 2022.
Pesado I
Luís Fernando (PSD), candidato governista, carrega outra equação. A campanha precisa transformar o apoio da máquina política em voto espontâneo, antes que a urna faça a diferença entre estrutura e popularidade. Caso contrário, sairá da eleição politicamente mais pesado que o Antonov An-225.
Pesado II
Falando em pesado, Acir Gurgacz (PDT), por sua vez, tenta recuperar terreno com o peso de quem já ocupou uma cadeira no Senado. O problema é que passado político não se deposita automaticamente na urna. As pesquisas recentes mostram Acir abaixo do bloco principal, embora ainda haja espaço para movimentação na reta final.
Barreira
No campo da esquerda, Luciana Oliveira (PT), Aires Mota (PV) e Neidinha Suruí (PSB) enfrentam uma barreira adicional: converter identidade ideológica em votos suficientes para uma disputa de duas vagas. Os levantamentos disponíveis mostram os três em patamares inferiores aos principais nomes.
Tentou
Na outra ponta do espectro, Engenheiro Thúlio (Missão) nem tentou transformar a candidatura de direita radical em voto efetivo. Até aqui, porém, os levantamentos publicados registraram percentuais baixos para sua candidatura. A urna, como sempre, será menos generosa com narrativas do que as redes sociais.
Explica
A reta final, portanto, não será apenas uma corrida de dez candidatos. Será uma batalha entre serviço prestado, territórios, ideologia, prestação de contas e capacidade de transformar dois votos disponíveis em uma estratégia eleitoral. No Senado, o segundo voto pode decidir quem comemora e quem explica a derrota.
Sério
Falando sério, no fim das contas, a reta final coloca candidatos, estratégias e narrativas diante do único juiz que não aceita marketing, pesquisa ou discurso ensaiado: a urna. Entre o voto silencioso, a guerra pelo Senado e a corrida ao governo, resta a velha lição da política: quem erra menos, ganha a eleição.
Com informações de: Herbert Lins

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AUTOR: HERBERT LINS





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