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E se Confúcio não desistiu? O silêncio que virou Senado em 2018 volta a assombrar o tabuleiro de 2026

E se Confúcio não desistiu? O silêncio que virou Senado em 2018 volta a assombrar o tabuleiro de 2026
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Ata registrada pelo PSB mantém aberta uma composição com Confúcio Moura ao Senado, enquanto o MDB atravessa mudanças na chapa de Pedro Abib e rearranjos de suplência; oito anos depois da convenção em que o caos antecedeu sua vitória, a pergunta já não é apenas onde está o senador

Por Informa Rondônia - domingo, 09/08/2026 - 18h20

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E se Confúcio Moura não desistiu?

A pergunta, que há poucos dias poderia soar apenas como resistência daqueles que se recusavam a acreditar na carta de despedida do senador, ganhou elementos suficientes para deixar de ser mero exercício de imaginação política. Não há, até aqui, anúncio público de retorno. Não há declaração de Confúcio revogando aquilo que anunciou. Não há fato consumado que permita cravar sua candidatura à reeleição. Mas há movimentos, documentos, rearranjos partidários e informações de bastidores que recomendam cautela antes de escrever o epitáfio eleitoral daquele que transformou o silêncio em uma de suas principais ferramentas políticas.

Confúcio comunicou publicamente a desistência da reeleição ao Senado depois de ter sido homologado pelo MDB para a disputa. Na nota divulgada ao público, anunciou a retirada da candidatura após aquilo que classificou como uma reflexão profunda, serena e responsável.

Parecia simples. Fez a carta, apresentou sua decisão à população e aparentemente seguiu a vida.

Simples demais para Confúcio.

Não porque exista prova de alguma operação secreta previamente desenhada, mas porque a trajetória política do senador ensina que os momentos mais perigosos para seus adversários — inclusive os adversários instalados dentro do próprio partido — nem sempre são aqueles em que ele fala. Muitas vezes ocorre justamente o contrário. Confúcio fez carreira política convivendo com guerras internas, sobrevivendo a elas e, não raramente, deixando que os outros se desgastassem enquanto aguardava o instante mais conveniente para ocupar o espaço que restava.

O precedente mais didático está oito anos atrás.

Em 2018, Confúcio deixou o Governo de Rondônia para disputar o Senado e encontrou dentro do então MDB uma guerra que estava longe de ser protocolar. O grupo ligado ao senador Valdir Raupp, embora já demonstrasse sinais de enfraquecimento, tinha força partidária suficiente para transformar a convenção estadual numa batalha pelo controle das duas vagas ao Senado. A tensão explodiu.

Não se pode afirmar, sem prova, que Confúcio tenha criado deliberadamente aquele caos. Pode-se afirmar o que ocorreu: correligionários ligados ao ex-governador reagiram à tentativa de submeter à votação a escolha de apenas um candidato ao Senado; houve tumulto, uma porta de vidro caiu, uma mesa foi destruída, a Polícia Militar foi acionada e a convenção acabou suspensa temporariamente. No episódio mais emblemático daquele sábado, o então presidente estadual do MDB, Tomás Correia, atingiu com um tapa no rosto Emerson Castro, ex-chefe da Casa Civil da gestão Confúcio e defensor da candidatura do ex-governador.

Foi um porradão político em sentido literal e figurado.

Quando a poeira baixou, entretanto, o resultado interessava diretamente a Confúcio: o MDB terminou a convenção com duas candidaturas ao Senado, a dele e a de Valdir Raupp. O grupo que tentava restringir a disputa não conseguiu eliminá-lo da chapa. Confúcio entrou na eleição. Raupp também entrou. Em outubro, Confúcio recebeu 230.361 votos e conquistou uma das duas cadeiras de Rondônia no Senado; Raupp terminou derrotado.

Essa retrospectiva não prova que 2026 repetirá 2018. Ela serve para explicar por que a atual retirada de Confúcio merece ser observada com alguma desconfiança política.

Em 2018, o conflito explodiu diante das câmeras, com vidro quebrado, tapa, empurra-empurra e uma convenção transformada em campo de batalha. Em 2026, a guerra é aparentemente mais silenciosa. O instrumento não é uma porta derrubada. São atas, telefonemas, reuniões, suplências, articulações nacionais e decisões partidárias que parecem mudar antes mesmo de o eleitor terminar de compreendê-las.

O primeiro ponto estranho é a velocidade com que Confúcio largou o osso.

Poucos dias antes de anunciar a desistência, a convenção estadual do MDB havia confirmado Pedro Abib ao Governo e Confúcio à reeleição. Paulo Andrade aparecia como primeiro suplente do senador, enquanto Cláudia Moura integrava a composição como segunda suplente.

Depois veio a carta.

E, depois da carta, o tabuleiro não parou.

Pedro Abib permaneceu como candidato ao Governo, enquanto o MDB avançou numa composição com o PDT em torno da candidatura de Acir Gurgacz ao Senado. Paulo Andrade, até então escolhido para ser primeiro suplente de Confúcio, foi deslocado para ocupar a primeira suplência de Acir. Ao mesmo tempo, o vice de Abib virou outro capítulo de instabilidade interna. Na convenção, o nome ainda não estava definitivamente estabelecido. Posteriormente, Amir Lando apareceu nas negociações, mas a ata da Executiva registrou que ele teria recusado a indicação por motivos pessoais e Mauro Pereira dos Santos, o Dr. Mauro Santos, acabou aprovado para a vaga. Outra versão publicada pela imprensa local sustentou que Amir não teria desistido espontaneamente, mas sido inviabilizado por Confúcio. São versões distintas sobre o mesmo movimento e, justamente por isso, demonstram como a composição permaneceu em ebulição mesmo depois da suposta saída do senador.

Até Paulo Andrade, portanto, mudou de lugar no jogo.

Era o primeiro suplente de Confúcio. Passou a primeiro suplente de Acir.

Amir apareceu para a vice. Depois saiu.

Dr. Mauro [que não é o Nazif] entrou. Enfim, uma bagunça total e muito mal explicada.

Agora, Pedro Abib permaneceu.

Acir avançou.

E Confúcio, oficialmente fora, continuou produzindo efeitos sobre praticamente todas as peças ao redor.

Há quem enxergue nisso apenas a reorganização natural de uma aliança após a desistência de seu principal candidato ao Senado. É uma leitura possível. A outra é mais incômoda: e se o espaço de Confúcio nunca tiver sido efetivamente ocupado porque ainda existe a possibilidade de ele voltar?

Essa hipótese deixou de depender exclusivamente de conversa de corredor por causa de um documento.

No dia 5 de agosto, a Executiva Estadual do PSB reuniu-se extraordinariamente em Porto Velho para deliberar sobre uma eventual coligação majoritária com MDB e PDT. A ata foi posteriormente encaminhada à Justiça Eleitoral: o recibo registra o envio em 6 de agosto, às 20h17.

O conteúdo é muito mais eloquente do que qualquer declaração genérica de intenção.

A Executiva do PSB aprovou sua participação numa coligação entre PSB, MDB e PDT estabelecendo condições objetivas: Samuel Costa permaneceria candidato ao Governo; uma das vagas ao Senado seria ocupada por Confúcio Moura, do MDB; a outra ficaria com Acir Gurgacz, do PDT. Mais do que simplesmente mencionar Confúcio, o documento definiu que a manutenção das candidaturas dele e de Acir constituiria “condição indispensável” para a permanência do PSB na composição. Se qualquer um deles fosse substituído pelos respectivos partidos, o PSB deixaria a aliança e concorreria isoladamente.

Não se trata, portanto, de alguém ter pronunciado o nome de Confúcio numa conversa informal.

Seu nome foi colocado em uma ata partidária.

Confúcio está, documentalmente, no desenho político que o PSB aceitou construir.

O documento ainda foi registrado após a manifestação pública em que o senador anunciou que não disputaria a reeleição. O recibo da Justiça Eleitoral mostra que a reunião partidária ocorreu em 5 de agosto e a ata foi enviada no dia seguinte.

É aí que a pergunta inicial muda de peso.

E se Confúcio não desistiu?

Ou, mais precisamente: e se Confúcio desistiu naquele momento, mas jamais fechou politicamente a porta que permitiria desistir da própria desistência?

A diferença parece semântica. Na política, é gigantesca.

O próprio documento do PSB funciona como um tapete vermelho estendido para eventual retorno. Não obriga Confúcio a ser candidato, não substitui decisões que cabem ao MDB e muito menos equivale a um registro de candidatura do senador. Mas demonstra que existe pelo menos uma engenharia partidária formalmente documentada na qual ele permanece sendo tratado como candidato ao Senado.

E há mais.

O Informa Rondônia ouviu fonte fidedigna. Segundo ela, Confúcio vem se movimentando em Brasília. A informação recebida pelo jornal é de que a interlocução não estaria restrita ao presidente nacional do MDB, Baleia Rossi. Segundo essa fonte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, também estaria entre as autoridades que poderiam participar das conversas relacionadas ao futuro político do senador.

Esse ponto precisa permanecer exatamente onde está: no terreno da informação de bastidor.  Ainda assim, ela se soma a outros sinais.

Reportagens publicadas nos últimos dias já apontaram que interlocutores partidários enxergam possibilidade de retorno e que Confúcio continuaria trabalhando nos bastidores. Uma delas registrou inclusive mensagem atribuída ao senador pedindo que nenhuma decisão definitiva fosse tomada durante as negociações entre MDB, PDT e PSB antes do encerramento daquele dia.

O silêncio, portanto, pode não representar inatividade.

Coincidência ou não, houve ainda um gesto menor, sem peso suficiente para ser tratado como sinal político, mas curioso dentro desse cenário. Confúcio Moura apareceu entre os perfis que curtiram uma publicação de Dia dos Pais feita por Samuel Costa, candidato ao Governo pelo PSB — justamente o partido cuja ata mantém aberta uma composição que prevê Confúcio ao Senado. O Informa Rondônia procurou Costa e perguntou se esse tipo de interação era habitual entre os dois.

O candidato demonstrou surpresa com a curtida e tratou o episódio apenas como uma pequena gentileza, sem atribuir a ele qualquer significado maior. Questionado sobre eventual construção política envolvendo Confúcio, preferiu não avançar em esclarecimentos. A curtida, isoladamente, pode não representar absolutamente nada. Dentro de um tabuleiro em que atas, movimentos de bastidor e silêncios passaram a ser observados com lupa, porém, tornou-se mais uma coincidência a ser registrada — nada além disso, mas também nada que obrigue o observador a fingir que não viu.

Essa talvez seja a principal diferença entre observar Confúcio como personagem convencional e observá-lo à luz de sua própria história política.

Um político convencional anuncia que saiu e deixa de ser problema.

Confúcio anuncia que saiu e todos continuam discutindo o que ele fará.

O MDB continua reorganizando a chapa em torno do espaço deixado por ele. O primeiro suplente migra para outra candidatura. O vice de Pedro Abib muda durante a costura. O PSB registra uma ata condicionando uma aliança à candidatura daquele que anunciou ter desistido. Lideranças continuam discutindo sua eventual volta. E informações de bastidores o colocam em movimentação na capital federal.

Talvez tudo isso termine em absolutamente nada.

Essa possibilidade também precisa ser registrada.

Confúcio pode manter a palavra dada ao público, concluir seu mandato e simplesmente assistir à eleição de fora. A ata do PSB pode permanecer como testemunho de uma composição que jamais se concretizou nos termos inicialmente imaginados. Acir pode consolidar sua candidatura. Pedro Abib pode seguir para o Governo com a chapa reorganizada. E toda a especulação sobre retorno pode morrer antes do registro definitivo das candidaturas.

Mas há outra possibilidade.

Confúcio pode ter feito aquilo que políticos experientes fazem quando o terreno fica excessivamente hostil: retirado o corpo da linha de tiro sem necessariamente abandonar a guerra.

Nesse cenário, a carta teria reduzido a pressão imediatamente colocada sobre ele. Os aliados e adversários seriam obrigados a mostrar seus movimentos. Quem desejava sua vaga teria de sair da sombra. As composições seriam expostas. As lealdades apareceriam. As alternativas precisariam ganhar nomes. E Confúcio poderia assistir a tudo sem carregar diariamente o peso de sustentar uma candidatura cercada por conflitos internos.

Seria uma estratégia sofisticada.

Mas ainda é uma hipótese.

O que não é hipótese é que o cenário construído após sua saída continua estranhamente dependente dele.

O PSB poderia ter elaborado sua ata sem Confúcio. Não fez isso.

Poderia ter condicionado a coligação apenas a Acir. Não fez isso.

Registrou nominalmente Confúcio Moura e Acir Gurgacz como as duas candidaturas ao Senado cuja manutenção considera indispensável para permanecer na aliança.

É um detalhe grande demais para ser tratado como rodapé.

Também chama atenção o contraste entre 2018 e 2026.

Naquela eleição, o barulho protegia Confúcio. Enquanto todos discutiam quem havia quebrado a porta, quem havia provocado quem e quem tinha dado um tapa em quem, a questão verdadeiramente importante era outra: seu nome estaria ou não na chapa?

Esteve.

Enquanto o grupo de Valdir Raupp enfrentava uma guerra para controlar a convenção, Confúcio terminou dentro da disputa. Meses depois, foi eleito.

Agora ocorre quase o inverso.

Não há porta quebrada.

Não há mesa destruída.

Não há Tomás Correia distribuindo tapa.

Há silêncio.

E talvez esse seja um ambiente ainda mais confortável para Confúcio.

A história de 2018 recomenda que seus adversários não confundam ausência de ruído com ausência de estratégia. Naquela ocasião, ele atravessou uma convenção brutalmente dividida, garantiu seu lugar contra a resistência do grupo dominante e terminou senador enquanto Raupp, até então uma das maiores forças do MDB rondoniense, ficou pelo caminho.

Oito anos depois, quem observa apenas a carta pode concluir que Confúcio desistiu.

Quem observa o tabuleiro inteiro encontra uma conclusão menos confortável.

O senador saiu da fotografia, mas seu nome continua escrito nas atas. Saiu da candidatura de Acir, mas seu antigo primeiro suplente foi parar justamente nela. Saiu da disputa, mas segue sendo citado nas negociações. Saiu do palco, mas os demais personagens continuam representando em torno de sua cadeira vazia.

Há ainda uma avaliação circulando entre interlocutores políticos de que a manifestação pública de desistência não teria encerrado todas as possibilidades partidárias de eventual retorno. Trata-se, novamente, de uma interpretação de bastidor, e não de pronunciamento da Justiça Eleitoral. Qualquer afirmação definitiva sobre os efeitos jurídicos de atos internos do MDB dependeria dos documentos partidários correspondentes e, em caso de controvérsia, da análise da própria Justiça Eleitoral.

Editorialmente, porém, o problema é outro.

O problema é acreditar que Confúcio Moura ficou politicamente morto apenas porque anunciou a própria morte eleitoral.

O velho ditado se encaixa quase perfeitamente no personagem: pode ter se feito de morto para ganhar sapato novo.

Porque, enquanto parte do mundo político tratava de dividir aquilo que imaginava ser sua herança, Confúcio permaneceu capaz de interferir no jogo sem sequer declarar que estava jogando.

É isso que deveria preocupar principalmente quem comemorou cedo demais.

Se Confúcio realmente estiver encerrando a carreira eleitoral, seus adversários terão apenas gasto energia combatendo um fantasma.

Se estiver preparando uma volta, alguns deles podem descobrir que passaram os últimos dias expondo posições, interesses e fragilidades diante do homem que mais precisavam convencer de que o cenário estava fechado.

Em 2018, Confúcio precisou sobreviver a uma convenção em guerra para chegar ao Senado.

Em 2026, talvez precise apenas esperar.

A diferença é que, desta vez, enquanto ele permanece em silêncio, existem pessoas trabalhando para ocupar o espaço que julgavam definitivamente vazio.

Talvez Confúcio tenha desistido.

Talvez a carta tenha sido o último capítulo.

Talvez o senador esteja apenas organizando a saída.

Mas a ata do PSB, os rearranjos do MDB, as mudanças em torno da chapa de Pedro Abib, a transferência de Paulo Andrade para a suplência de Acir, as informações sobre articulações em Brasília e a permanência do nome de Confúcio no centro das conversas produzem uma pergunta que já não pode ser descartada como simples teoria política.

E se ele não desistiu?

Confúcio parece ter se feito de morto.

Nos bastidores, porém, continua vivo o suficiente para que partidos escrevam seu nome em atas, lideranças esperem seus movimentos e candidaturas inteiras ainda sejam discutidas levando em consideração aquilo que ele poderá fazer.

Talvez o moribundo não seja Confúcio.

Talvez sejam os projetos daqueles que tiveram pressa demais para deixá-lo para trás.

Os próximos dias dirão.

Rodapé da coluna

AUTOR: INFORMA RONDÔNIA





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